Precisamos falar sobre Transracismo Ambiental



Por Ícaro Kropidloski

            As enchentes de maio, ocorridas no Sul do Brasil, e as previsões preocupantes sobre o aumento das possibilidades de catástrofes políticas-ambientais como esta nos próximos anos, escancaram um assunto importante para a comunidade trans e negra: o racismo ambiental. Em janeiro deste ano, Anielly Franco, ministra da Igualdade Racial, repercutiu o termo, após deslizamentos e enchentes causadas pelas chuvas na capital carioca, e chegou a ser hostilizada e satirizada nas redes. 


No entanto, o debate é sério e o racismo ambiental existe. A expressão foi cunhada na década de 1980 pelo Dr. Benjamin Franklin Chavis Jr, militante negro e estadunidense que lutou pelos direitos civis. O conceito surgiu em um contexto de protestos contra o descarte de resíduos tóxicos no condado de Warren, no estado da Carolina do Norte (EUA), onde a maioria da população era negra. Aproximando esta temática aos tempos e realidades atuais, podemos pensar no racismo ambiental a partir de diferentes exemplos: 


  • Estabelecimento de indústrias e mineração próximo de locais pobres ou comunidades tradicionais; afetando o ar, a água e a qualidade de vida no geral.

  • Falta de saneamento e acesso a serviços básicos em regiões periféricas.

  • Gentrificação. Populações afastadas dos centros urbanos, obrigadas a viver em regiões com maiores riscos de alagamentos e/ou deslizamentos.

  • Ausência de arborização adequada e planejamento urbano nas periferias.


Comunidades quilombolas e indígenas brasileiras são especialmente afetadas pelo racismo ambiental, com o cerceamento ao direito à terra e a invasão e especulação dos seus territórios. Um exemplo: a tragédia humanitária no território Yanomami, em decorrência do garimpo ilegal, é uma faceta do racismo ambiental.  


Ativistas do FonaTrans debatem o transracismo ambiental


O FonaTrans, em uma perspectiva interseccional, defende o conceito de transracismo ambiental. Por isso, com apoio do Instituto de Mulheres Redesignadas (INAMUR), da Associação Brasileira de Intersexos (ABRAI) e da Liga Transmasculina, foi promovida mais uma live do projeto Cidadania Travesti e Transexual**, denominada Transracismo Ambiental: Corpas Pretes Jogadas Além da Margem dos Direitos Ambientais. A conversa foi conduzida por transativistas negres do FonaTrans de diferentes locais do Brasil: Gab Van (RJ), Lins Roballo (RS), Professora Letícia (SP) e Thiffany Odara (BA). Confira abaixo os principais pontos abordados. 


Ao pensar como o racismo ambiental afeta diferentes comunidades, Leticia salientou que “quando a gente fala de racismo, a gente precisa dizer que pessoas trans existem. O papel do FonaTrans é esse, lembrar desse recorte”. Lins Robalo, por sua vez, lembrou que o racismo ambiental é um desmembramento, uma consequência, de uma questão maior: o direito à cidade. Ela trouxe a percepção de que as corporalidades divergentes da heterocisnormatividade são extremamente invisibilizadas nas discussões do racismo ambiental e reforçou que  “é importante que o transracismo seja debatido porque nós também estamos nas periferias.” Sobre a junção e sobreposição das violências, Letícia destacou que “quando acontecem catástrofes climáticas ou sanitárias as pessoas acham que está todo mundo no mesmo barco. Mas não estão! Em situações como estas o racismo vai operar, a transfobia vai operar…”



Gab Van recordou, ao citar exemplos como o direito à água e à biodiversidade e os perigos da privatização, que “durante muito tempo o racismo foi tirado das pautas. Então, nos debates de justiça ambiental e climática a gente fala sobre como essas injustiças privam nossas populações (trans, negras, pobres, etc…).” Nesse sentido, Thiffany pontuou o racismo enquanto uma tecnologia de morte e adoecimento, visto que ele adoece quando coloca pessoas num lugar onde perde-se o direito à cidade, que pode ser encarado como o direito ao bem estar. “O capitalismo se coloca acima da vida e expulsa os corpos negros para margem”, explicouThiffany. 


Estes ativistas do FonaTrans, cada um representando uma localidade diferente do país, evidenciaram um consenso: o transracismo é um projeto político. É necessário articular e cobrar do poder público um diálogo horizontal com as comunidades, entendendo suas dores e demandas reais. 


Saiba mais…


O Canal Preto explica didaticamente o que é racismo ambiental. Confira o vídeo!




Fique de Olho!


Já conhece o Mapa de Conflitos, Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil? Esta é uma iniciativa da Fundação Oswaldo Cruz, que reúne informações sobre justiça ambiental de populações frequentemente discriminadas e invisibilizadas pelas instituições e pela mídia.  


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**Este material integra o projeto Saúde e Cidadania Travesti e Transexual, uma parceria do Fórum Black Trans Brazil - Fonatrans com o Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, com recursos do projeto BRA 15/004 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD).

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