‘Traveco, demônio, vira homem’: Após 4 meses, agressores de Cibelly do Pará seguem impunes

Ativista da causa LGBT criou abaixo-assinado para cobrar justiça no caso da transexual que foi espancada por 7 homens no Carnaval em Minas Gerais.


Cibelly do Pará antes e depois das


A transfobia tirou a vida de 329 lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais no ano passado, segundo dados do relatório anual do Grupo Gay da Bahia. Neste domingo (28), Dia do Orgulho LGBT, o Brasil será lembrado como o país que lidera o ranking de assassinatos de transexuais, de acordo com levantamento da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em conjunto com o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE). 

Somente em 2019, um total de 124 transexuais morreram vítimas da intolerância, um tipo de preconceito que no ano passado passou a ser equiparado ao crime de racismo e que, no Carnaval deste ano, quase matou Cibelly do Pará, em Minas Gerais. Passados 4 meses das brutais agressões, o ódio levado às últimas consequências por 7 homens segue sem respostas das autoridades, deixando um rastro de impunidade.

A violência foi tão grande que Cibelly perdeu uma parte do crânio, ficou paraplégica e sem voz. Enquanto era espancada pelo grupo de transfóbicos, que a todo momento dizia “vira homem”, ela foi chamada de “traveco”, “demônio” e teve seus dentes quebrados. Numa luta para impedir que o ódio vença o amor, o ativista LGBT e correspondente bancário Robhério Limma decidiu juntar apoiadores em um abaixo-assinado online para reforçar o clamor por justiça.  

“Queremos justiça! Que haja uma investigação séria pelo que aconteceu à Cibelly! Esses criminosos precisam pagar pelo que fizeram a ela”, apela no abaixo-assinado o ativista e fundador do Movimento Lute como Ele, que busca humanizar e criar ações de solidariedade a vítimas da violência homofóbica. A petição online foi criada na plataforma Change.org e já engaja mais de 10 mil pessoas, pressionando a Polícia Civil de Minas Gerais por respostas. 

Nascida em Belém, no Pará, Cibelly Pamela, mulher transexual, morava em Belo Horizonte (MG). Em 22 de fevereiro, saiu para um bloco de Carnaval, mas no caminho foi cercada pelos 7 homens que a espancaram e a deixaram entre a vida e a morte. Apenas no último dia 6, Cibelly teve alta do Hospital João XXIII, onde passou por cirurgia de correção para fatura de afundamento de crânio e traqueostomia. Foi, então, levada pela família de volta ao Pará. Lá, tenta se recuperar.

“A comunidade LGBTTQIA+ carrega sequelas muito profundas na alma. Mas, para mim, a letra T da sigla [travesti e transexual] é o alvo maior da brutalidade, da intolerância e de todo ódio. Eu só quero que esses criminosos sejam presos e que as leis neste País sejam cumpridas. O motivo é que vidas trans importam”, desabafa Robhério ― que, por quatro anos na infância, também sentiu na pele a dor de ser violentado e torturado. 

“Me causa repulsa saber que existem 7 monstros soltos por esse Brasil esperando somente para atacar outra vítima”, indigna-se. O ativista, de 32 anos, ficou chocado com as imagens das agressões de Cibelly, feitas quando ela foi achada desacordada. “É horripilante, apavorante”, diz ao se lembrar da quantidade de sangue. 

Transformando a dor em luta

Foi por meio da página do Movimento Lute como Ele, que mantém nas redes sociais, que o correspondente bancário soube do caso de Cibelly. Logo após receber uma mensagem, procurou por parentes próximos da vítima e conseguiu o contato de uma prima. O passo seguinte foi começar a mobilização, que além da petição, conta com uma vaquinha online apoiada pelo projeto Razões para Acreditar, que já arrecadou 211% da meta. 

Segundo explica Robhério, o valor - R$ 97 mil até o momento - será fundamental para ajudar a família de Cibelly a lidar com os custos de sua adaptação a uma nova realidade, que demanda uma série de cuidados, como tratamento de fisioterapia e fonoaudiologia, além de medicamentos, fraldas e alimentação especial. O ativista também lançou uma rifa na internet.   

“Eu liguei primeiro para a prima, depois fiz uma chamada de vídeo através do WhatsApp com o pai e ainda ganhei um sorriso da Cibelly. Eles ficaram bastante agradecidos e emocionados pela oferta de ajuda”, conta o jovem. 

ARQUIVO PESSOAL
Robhério em chamada de vídeo com Cibelly.

Robhério agradece aos mais de 1.800 apoiadores que doaram à vaquinha e às 10 mil pessoas que intensificam a pressão por justiça na petição.

Essa não é a primeira vez que o ativista se mobiliza para ajudar uma causa LGBT e, no que depender do cenário de intolerância que mata em média uma pessoa trans a cada 3 dias no Brasil, não será a última. No ano passado, também por meio do Movimento Lute como Ele, Robhério lançou uma campanha para pedir justiça e apoiar a recuperação do amigo Jefferson Anderson Feijó da Cruz, vítima de homofobia em dezembro de 2018, em Pernambuco.  

O HuffPost contou a história de Jeff, que um ano e meio depois de sofrer violência e correr risco de morte, apresenta melhoras significativas. Apesar de ainda não conseguir andar ou falar, teve a traqueostomia retirada e não depende mais de sonda para respirar ou se alimentar. Depois de muita lentidão, a investigação levou à identificação e prisão do suspeito do crime de tentativa de homicídio contra Jefferson. 

Robhério entristece-se pelo fato de os LGBTs e as pessoas negras serem tratados como bandidos ou como uma problematização pela sociedade. “Temos que lidar com as rejeições, os incontáveis abandonos, os medos, a insegurança de sair por aí nas ruas e não saber se voltamos pra casa porque diuturnamente somos alvos da violência, andamos com uma mira na nossa cabeça. E tudo isso por sermos pessoas LGBTTQIA+ ou negros”, afirma. 

Apesar de considerar que o trauma da violência fica para sempre, não acredita que significa o fim da vida. “Dá para tentar ajudar outras pessoas com isso. Às vezes um abraço é tudo o que precisamos e, se não achamos isso, nós devemos abraçar outras pessoas. É importante ressignificar a própria existência e eu quis sair do meu papel de vítima e me tornei dono da minha própria história”, desabafa.  

Para o ativista e fundador do Movimento Lute como Ele, o Dia do Orgulho LGBTI é uma mistura de conquistas, emoções e lembranças “não muito boas”. Ele pondera que, antes da data ser celebrada, muitos gays, lésbicas, travestis e transexuais foram atacados, mortos ou ficaram com graves sequelas, como seu amigo Jeff e a Cibelly do Pará. “Me faltam palavras para descrever essa luta árdua nossa de cada dia”, emociona-se o jovem pedindo que os pais de pessoas LGBTs não abandonem seus filhos e não sejam cúmplices da intolerância. 

A passos lentos 

A equipe da Change.org, plataforma onde segue aberto o abaixo-assinado em prol de justiça para Cibelly, procurou a Polícia Civil de Minas Gerais para saber sobre o andamento das investigações. Em nota, a corporação informou que diligências foram realizadas para identificar os agressores e solicitar imagens de câmeras de segurança ao redor do local do crime, mas que nenhuma captou as agressões ou os suspeitos. Uma delas, que ainda passa por perícia, mostra a multidão que participava do bloco de carnaval e a chegada da equipe do Samu.

“Diversas pessoas foram chamadas a prestar informações, no entanto, ainda não temos testemunhas do fato e muitos preferem não se envolver e não prestar nenhum tipo de cooperação”, afirma a nota. Segundo informado, apenas o pai e uma amiga de Cibelly compareceram à delegacia. O celular da vítima foi requisitado, mas ainda não entregue. 

“A Polícia Civil de Minas Gerais informa que desde que tomou conhecimento, 6 dias após o fato da tentativa de homicídio contra Cibelly, não poupa esforços para esclarecer o crime”, diz trecho do comunicado. “A junção desses fatores, demora na denúncia, a falta de pessoas que tenham testemunhado os fatos dispostas a colaborar e imagens que não capturaram os fatos, vêm dificultando a ação da PCMG para identificar os autores”, acrescenta.

A Delegacia Especializada em Repressão aos Crimes de Racismo, Xenofobia, LGBTfobia e Intolerâncias Correlatas esclareceu que o caso continua sendo investigado e pede a quem tiver qualquer informação, que possa auxiliar nos trabalhos e identificação dos autores da tentativa de homicídio, a procurar a Polícia Civil ou fazer uma denúncia anônima pelo 181. 

Fonte: HuffPost

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