Estudante trans expulsa de casa e ex-moradora da Cracolândia conquista 1º lugar na UFF: "Meus sonhos são possíveis"


A Marie Claire, a estudante Olivia Cordeiro, de 26 anos, conta como superou saiu das ruas e se tornou universitária em Ciências Econômicas na Universidade Federal Fluminense (UFF). Cada vez mais perto de conseguir o diploma, ela sonha em acabar com as violências contra comunidade trans e promover mais oportunidades

Imagine ser expulsa de casa, morar na rua, conhecer a dependência química. Agora imagine passar por tudo isso sendo uma travesti. Essa é a história de Olivia Cordeiro. Só que ela não conta uma história de tristeza, mas sim de luta e resiliência: aos 26 anos, é universitária após ser aprovada em primeiro lugar no vestibular para o curso de Ciências Econômicas da Universidade Federal Fluminense (UFF).

A história viralizou nas redes sociais quando ela pediu ajuda para conquistar a permanência no curso. “A faculdade nunca foi um sonho romântico pra mim, foi sempre uma exigência prática”, conta a estudante em entrevista a Marie Claire. Foi por necessidade que decidiu abrir uma vaquinha online e arrecadar dinheiro para custear as despesas como estudante. Embora o curso seja gratuito, a estudante terá despesas com material, moradia, alimentação e locomoção ao longo dos próximos quatro anos.

Olívia também precisa de ajuda porque é a única responsável pelo próprio sustento desde os 19 anos, quando foi expulsa de casa. “Minha identidade nunca foi uma crise para mim. Quando comuniquei para a minha família, fui simples e direta. Na época, já não tinha proximidade afetiva com eles porque fui agredida na infância e expulsa de casa aos 19 anos, quando meu pai me viu beijando um menino. Hoje, tenho uma regra clara: ou me chamam pelo meu nome, Olivia, ou não estão falando comigo.”

“A rua foi o momento mais extremo”

Nascida em Limeira, no interior de São Paulo, Olivia se mudou para São Paulo em 2022. Na capital, as violências sofridas se agravaram e ela conheceu a dependência química, passando a morar na Cracolândia – nome pelo qual ficou conhecida uma série de ruas no centro da cidade, ocupada por pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Por mais que quisesse retomar os estudos, tudo parecia conspirar contra. “Tudo decaiu muito rápido. Sendo honesta, nunca vi minha vida como uma situação simples, afinal, eu cresci em uma casa violenta, fui marcada por perdas e rompimentos. Não foi o único momento difícil, mas com certeza, a rua foi o momento mais extremo”.

Neste período, Olivia relembra que tinha acesso à alimentação graças a doações, mas nem sempre conseguia um ambiente seguro para dormir. Na maioria das vezes, era alvo de agressões ainda mais brutais pelo preconceito com pessoas da comunidade trans.

“Sofri muita violência física e sexual, conheci um rapaz que me batia muito e que me deixou com diversas cicatrizes pelo corpo. Não havia rotina, nem tempo para que eu pensasse em estudar. Era uma situação sem previsibilidade alguma”, relembra.

Após mais de um ano de sua chegada a São Paulo, a estudante tomou uma decisão que mudaria os rumos de sua vida. Decidiu que não usaria mais crack, fosse com ou sem a intervenção e ajuda de terceiros. Ela retomou os estudos e decidiu prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).

Diagnosticada com Altas Habilidades e Superdotação (AH/SD) desde os três anos, Olivia nunca apresentou dificuldades escolares e já havia obtido bons resultados em outras edições de vestibulares. Enquanto ainda morava na rua, decidiu que faria a prova novamente. O resultado foi positivo: ela foi aprovada em Ciências Econômicas na UFF.

“Quando saiu o resultado, eu estava em um abrigo. Não foi uma cena de celebração, não houve festa, nem abraço. Ainda não tinha encontrado suporte, então por vezes, pensei que teria de desistir”, diz a estudante.

Universitária nas ruas

Com apenas dois reais restantes no bolso, Olivia chegou à capital fluminense e iniciou a procura por um abrigo social. No início, teve de dormir na calçada até que encontrasse uma vaga. Desde então, a rotina é dividida entre os estudos, no campus do Gragoatá da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, e a busca incessante por sustento. Olivia conta que a violência não acabou com um teto sobre sua cabeça e diz ter sido alvo de humilhações nos abrigos que precisou frequentar. Diz também que pediu ajuda à instituição de ensino, mas só recebeu assistência depois da repercussão de sua história nas redes sociais

“Em março, estava pronta para ir embora. Não via uma saída. Porém, meu celular descarregou e meus documentos foram recusados na rodoviária. Se não fosse por isso, eu não teria ficado.”

Em busca de apoio imediato, Olivia recorreu à Associação Recomeçar. A ONG divulgou a história da estudante nas redes e abriu uma vaquinha on-line, que foi repercutida pela página Razões Para Acreditar, pouco antes da jovem ir até a rodoviária e ter seus planos de desistência interrompidos pelo acaso.

“Eu os procurei em busca de trabalho e quando contei minha história, meu vídeo viralizou em questão de horas. Quando voltei da rodoviária e coloquei meu celular para carregar, vi que tinha viralizado.”

A meta inicial era de R$ 90 mil, mas a campanha ultrapassou os R$100 mil em questão de dias. Hoje, Olivia usa as doações para conseguir custear as necessidades básicas até o fim do curso. A repercussão também abriu novas portas: ela conquistou um estágio em um um laboratório de prevenção à violência, onde usa sua história para desenvolver políticas públicas ao lado de pesquisadoras das universidades renomadas de Chicago e Princeton, dos Estados Unidos.

“Os recursos são destinados a minha manutenção básica: moradia, alimentação e tudo que é necessário para eu concluir a faculdade. O controle financeiro é feito pela própria Associação Recomeçar, com prestação de contas. O que é ‘supérfluo’, banco com o dinheiro do estágio.”

“Meus sonhos não se tornaram mais fáceis, mas sim, possíveis”

Longe da realidade que vivenciou por anos antes de chegar ao Rio de Janeiro, Olivia vê a possibilidade de dar continuidade aos estudos com mais confiança após as doações.

No entanto, ela defende que, para que outras pessoas trans ingressem nas universidades, é preciso que o “mal seja cortado pela raiz”, um objetivo que ela tem como primordial enquanto se gradua. “Meus sonhos não se tornaram mais fáceis, mas sim, possíveis. Agora, tenho condições mínimas para caminhar”.

“Quero um futuro em que ser trans ou travesti não seja uma questão que precise ser enfrentada. E o que eu diria pra qualquer travesti que esteja no fundo do poço agora é o mesmo que eu aprendi: ninguém vai te salvar. Mas também, ninguém vai te parar.”

Financeiramente estável, a estudante está confiante de que se formará e que, em breve, fará a diferença, transformando a realidade de outros estudantes, especialmente, de travestis e transsexuais:

“Quero formular políticas públicas baseadas em evidências científicas que reduzam a violência e a pobreza entre travestis e trans em situação de vulnerabilidade extrema. Para isso, eu preciso da formação acadêmica. Economia é meu plano A e vai ter que dar certo. Não existe um plano B.”

UFF diz que tem programas de permanência para pessoas trans

Procurada pela Marie Claire, a equipe de comunicação da Universidade Federal Fluminense disse que a instituição tem desenvolvido programas de permanência para pessoas trans*. Desde 2024, criou a Comissão Transvestigênere, que promove a inclusão de estudantes trans, travestis e não bináries na universidade, destinando 2% das vagas de graduação ao grupo. Em 2025, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAES) lançou o Programa de Políticas Afirmativas, em que consta uma política de “condições de permanência”. O programa previa 30 vagas, com auxílio mensal de R$ 500 por até 11 meses.

Leia abaixo a nota na íntegra

*Primeiramente, é importante reconhecer que a aprovação e conquista das políticas de ações afirmativas para pessoas trans e travestis na UFF é resultado de um processo coletivo de mobilização protagonizado por estudantes trans, travestis e não bináries da universidade, organizados especialmente por meio da Rede Trans UFF. Em 2023, representantes do movimento apresentaram formalmente a demanda por cotas trans à Reitoria, que assumiu o compromisso de construir uma proposta institucional.

Como desdobramento desse processo, foi criada, em 2024, a Comissão Transvestigênere da UFF, composta por representantes discentes, docentes e técnico-administrativos, responsável por elaborar a minuta da política, promover debates internos e externos (buscando experiências em outras instituições e sistematizar experiências de outras universidades brasileiras) e construir a proposta posteriormente aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (CEPEx) da universidade. A política foi aprovada por unanimidade pelo CEPEx e entrou em vigor para os processos seletivos de 2025.

A resolução estabelece a reserva de 2% das vagas em todos os cursos presenciais de graduação da UFF, além da reserva de uma vaga por curso de pós-graduação, destinadas a pessoas trans oriundas da escola pública. A implementação das cotas foi acompanhada da criação de mecanismos específicos de permanência estudantil. Em 2025, a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAES) lançou o Programa de Políticas Afirmativas: Auxílio para Pessoas Trans, destinado a estudantes ingressantes pelas cotas trans. O programa tem como objetivo promover condições de permanência e sucesso acadêmico, priorizando estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. O edital inicial previu 30 vagas, com auxílio mensal de R$ 500 por até 11 meses.

Fonte: Revista Marie Claire

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