Premiada fora do Brasil: a programadora trans que criou modelo de IA que protege a comunidade LGBTQIAPN+
Veronyka Gimenez é uma das hacktivistas e diretora por trás do 'Código Não Binário', uma organização de tecnologia que visa a inclusão em um mundo cada vez mais conectado. A Marie Claire, a programadora se aprofunda na criação da TybyrIA, a primeira inteligência artificial em português a detectar padrões de ódio contra a comunidade LGBTQIAPN+, que venceu prêmio internacional
Veronyka Gimenez, de 40 anos, diz que o desejo de dominar os computadores, a linguagem de programação e a tecnologia é antigo. Ainda no início da adolescência, ela se aproximou da área, sobretudo porque já tinha interesse em videogames e queria aprimorar a potência das CPUs, os processadores usados pelos computadores domésticos. “Esse fascínio me levou para o hackeamento. Era a maneira de dar um ‘jeitinho’, o que, consequentemente, virou trabalho”, conta a programadora em entrevista a Marie Claire.
Com a chegada da vida adulta, Veronyka começou trabalhando em uma multinacional da tecnologia. Esse foi apenas o início de sua trajetória. Ao longo do anos, o trabalho em grandes corporações deixou de fazer sentido. Ela queria mais.
“Eu tinha uma compreensão muito mais diversa do que poderia ser o uso da tecnologia. Minha experiência com a linguagem eletrônica já era bem mais ampla e não ficava apenas na programação. Meu conhecimento se unia à cultura digital e alternativa.”
Em 2008, a programadora reuniu um grupo para debater a utilidade da programação em causas sociais, como movimentos políticos. Só em 2013, as discussões se aprofundaram e Veronyka começou a fazer parte de programas propostos pela cidade de São Paulo durante o governo de Fernando Haddad. Na época, ela contribuiu com a implementação de ciclovias, corredores urbanos e núcleos de habitação social da metrópole.
Com o fortalecimento de discursos autoritários e conservadores no Brasil e no mundo, a programadora decidiu mergulhar de cabeça no hacktivismo, movimento que ganhou força.
“Nesse momento comecei a entender a influência da tecnologia na política e a minha presença nesse meio. Atrelada a outras vertentes, da psicanálise e da religião, passei pela transição de gênero, e comecei a questionar o binarismo. Depois, tudo no ambiente digital passou a ter um novo sentido."
Foi assim que nasceu o ‘Código Não Binário’, uma organização que visa discussões e soluções para a inclusão e o respeito à diversidade dentro dos meios digitais. O projeto é financiado pelo Fundo-Brasil e tem o apoio de programas como o Digital Democracy Initiative.
Recentemente, o grupo anunciou a criação da TybyrIA, um modelo de inteligência artificial capaz de detectar discursos de ódio contra LGBTs. A proposta tem se tornado notícia em todo o mundo e foi premiada internacionalmente durante uma conferência de IA cooperativa em Istambul, na Turquia.
“Dados são o novo petróleo”
A TybyrIA é um sistema autoral da instituição que possui Veronyka e outros hacktivistas com anos de experiência na programação como membros. O modelo é o primeiro em língua portuguesa criado para detectar o discurso de ódio.
“Percebemos que o discurso Red Pill começou a dominar o meio digital, se tornando um padrão. Foi por isso que passamos a desenvolver projetos de comunicação. Primeiro, fizemos um podcast, onde trazíamos vozes diversas. Só que quem participou, em especial pessoas trans, sofreram uma onda de preconceito. Isso nos incomodou muito”, relembra a programadora.
A preocupação de Veronyka era de que más condutas na web, se banalizadas, impedissem a inclusão e a equidade, em um ambiente cada vez mais conectado. “Há uma frase que diz que os dados são o novo petróleo, o que pode soar meio abstrato. Na prática, junto com a avalanche de ódio que recebemos, nós recolhemos esses dados e treinamos a IA para detectar esses ataques como violência. Dessa maneira, criamos ‘riqueza’.
Hoje, a TybyrIA opera de maneira gratuita por meio do Radar Social LGBTQIA+ e identifica discursos de transfobia, homofobia, lesbofobia, bifobia, violência e citação ao “nome morto” – como pessoas trans se referem ao nome imposto antes da transição. O sistema trabalha também para que discursos de ódio sejam punidos.
A ferramenta, considerada promissora, agora precisa de espaço de diálogo com grandes empresas do mercado digital. Veronyka aponta que, em decorrência da alta do conservadorismo, essa é uma das principais dificuldades daqueles que desejam mais equidade digital.
“O momento é muito difícil. O que vemos é um alinhamento do setor tecnológico com um projeto colonial e isso ficou muito claro, principalmente, depois do segundo mandato de Donald Trump.”
Reconhecimento internacional
Mesmo com os entraves, a TybyrIA conquistou reconhecimento internacional. Em novembro de 2025, Veronyka e sua equipe receberam o Du Bois Prize de “Menção Especial”, em Istambul, na Turquia. Idealizado pelo Platform Cooperativism Consortium, o prêmio visa o reconhecimento de práticas e estudos cooperativos, na criação de ambientes digitais inclusivos e democráticos.
“Foi uma surpresa, porque a gente não esperava receber o reconhecimento internacional, ainda mais porque a organização do evento não era tão diversa. Acho que isso dá visibilidade e credibilidade. Assim, podemos fazer com que as pessoas confiem mais no nosso trabalho e transformar nossa força em combustível, multiplicando nossas ideias e trazendo mais pessoas.”
Com a conquista do prêmio, a programadora tem trabalhado na educação, seja com antenados da tecnologia ou leigos. Por meio do Código Não Binário, Veronyka promove oficinas que ajudam na capacitação de profissionais comprometidos com a inclusão e o uso ético da tecnologia. Já nas redes, ela produz vídeos em que visa o fim da desinformação.
“Estamos tentando fazer a diferença em um país dominado pelas ‘colônias digitais’ e pelo discurso sensacionalista, gerando um processo pedagógico dessa linguagem tecnológica. Somos independentes, então existe uma dificuldade por não sermos favorecidos, como acontece com aquilo que é beneficiado pelo algoritmo". A hacktivista quer continuar ajudando a construir um ambiente digital mais diverso, em que todos possam existir com respeito.
“Acredito que quanto mais conteúdo pudermos desenvolver e quanto mais esclarecermos, mais saudável estaremos para superar essa situação.”
Fonte: Redação Marie Claire - São Paulo (SP)
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