Por que estudar ainda é um desafio para pessoas trans?


Educação, acesso e permanência de pessoas trans nas instituições de ensino

Matrículas cresceram e cotas avançaram, mas transexuais, transgêneros e travestis ainda enfrentam obstáculos cotidianos para estudar e permanecer nas instituições educacionais

Para crianças, adolescentes e jovens trans, a escola pode ser o primeiro espaço público em que o corpo e a identidade passam a ser questionados, “corrigidos” ou negados. Às vezes, de forma violenta na chamada feita pelo nome errado, no uso trocado de pronomes. Em outras, no banheiro, no uniforme, no currículo que não reconhece sua existência ou no silêncio de docentes e coordenadores que não sabem como agir, não querem se envolver ou preferem evitar o conflito.

Nos últimos tempos, o país avançou no reconhecimento de direitos educacionais de transexuais, transgêneros, travestis. Há normas sobre nome social, direito garantido desde 2018, aumento de matrículas na educação básica — segundo dados da Rede Trans Brasil, em 2024, 9.003 pessoas matriculadas na rede pública estadual se identificavam como trans ou não-binárias, alta de quase 300% em seis anos — e universidades que passaram a adotar cotas para essa população — hoje, são 39.

No entanto, o caminho entre entrar e permanecer em instituições de ensino é tortuoso e ainda atravessado por transfobia, despreparo institucional, rejeição familiar, pobreza e ausência de políticas efetivas de acolhimento.

Não é abandono, é expulsão

É por isso que, nesse contexto, falar em evasão escolar não dá conta do problema. O que interrompe essas trajetórias, muitas vezes, não é o abandono, mas a expulsão: um processo hostil do dia a dia que empurra estudantes trans para fora do mundo da educação.

Para Silvana de Souza Nascimento, docente do departamento de antropologia e vice-diretore da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH–USP), o vocabulário usual esconde o essencial. “A gente não chama de evasão e, sim, de expulsão porque essas pessoas não permanecem na escola por conta da transfobia, por não terem a sua identidade respeitada e por serem tratadas pelo nome morto”, explica elu.

Doutora em educação e autora de “Programa de Travesti” (Diálogo Freiriano, 2026), a educadora e jornalista Sara Wagner York tem a mesma opinião. De acordo com ela, quando o ambiente escolar produz humilhação cotidiana, isolamento e bullying com características de transfobia, homofobia, xenofobia e racismo, chamar a saída de evasão funciona como uma absolvição institucional “de estruturas opressoras”. “É um modo equivalente de dizer: ‘A gente não teve culpa, o aluno saiu porque quis'”, resume.

Sayonara Nogueira, secretária de comunicação da Rede Trans Brasil e professora de geografia na cidade de Uberlândia, em Minas Gerais, criou há alguns anos um canal de denúncias sobre violações na educação básica. O que mais chegava ali: professores que se recusavam a usar o nome social da criança ou do adolescente, mesmo após a portaria de 2018 do Conselho Nacional de Educação que garantiu esse direito aos estudantes, e o eterno impasse do banheiro, sobre o qual não há lei específica nem decisão do Supremo Tribunal Federal.

“Infelizmente, em 2026, a pauta ainda é nome e banheiro”, comenta. Na ausência de uma regra institucional mais clara, Nogueira conta que a alternativa encontrada na escola onde trabalha foi orientar o uso do banheiro acessível, de cabine individual — uma solução provisória que, justamente por isso, evidencia o vazio de políticas para lidar com a questão.

"Infelizmente, em 2026, a pauta ainda é nome e banheiro"

A discussão sobre banheiros, fala York, revela mais uma dimensão. Em outros espaços, sobretudo em empresas, soluções como cabines individuais e sinalizações menos marcadas por gênero foram adotadas sem grandes conflitos. Já na escola e na universidade, o tema costuma ser capturado por receios que, segundo ela, dizem menos respeito à segurança e mais à resistência em reconhecer determinados corpos e identidades.

Currículo e pertencimento

Conforme Silvana de Souza Nascimento, da USP, a exclusão de pessoas trans também passa pelo que é ensinado — e pelo que fica de fora dos livros e das aulas. Elu defende, por exemplo, que cursos como medicina e psicologia incorporem de forma estruturada conteúdos voltados às experiências e aos corpos trans, para que profissionais em formação estejam preparados para oferecer atendimento qualificado e respeitoso a esses pacientes no futuro.

“Não dá para tratar assuntos ligados à população trans como temas periféricos ou excepcionais. É preciso que essas discussões façam parte da formação”, afirma. Segundo Nascimento, quando o currículo ignora essas vivências, reforça estigmas e contribui para que trans encontrem barreiras até mesmo em serviços que deveriam acolher.

A ausência de conteúdos que nomeiem pessoas trans e travestis também promove exclusões dentro dos próprios centros educacionais, avalia Sara Wagner York. O currículo ensina quem pode ocupar o centro da narrativa e quem permanece nos “entrelugares”, como chama a educadora. Toda essa problemática passa ainda pela formação docente. Sem preparo, dúvidas de estudantes acabam sendo ignoradas, enquanto situações de discriminação muitas vezes seguem sem resposta dentro da sala de aula.

"A educação é a maior ferramenta de combate à transfobia"

A professora Sayonara Nogueira concorda que a formação continuada é um dos pontos centrais. Debates sobre gênero e sexualidade, argumenta, deveriam estar presentes tanto nas graduações quanto na capacitação de servidores que chegam às escolas. Para ela, parte das políticas públicas já existe; o desafio está em garantir que elas sejam implementadas. “Acredito que a educação é a maior ferramenta de combate à transfobia”, pontua.

Em 25 anos de docência, Nogueira diz nunca ter sido discriminada por alunos. As situações mais difíceis que viveu vieram de colegas: perguntas invasivas, desrespeito e o uso da palavra travesti como xingamento. “Eu me identifico como travesti, é um termo político”, diz.

“Rompi com as barreiras da binaridade de gênero para ser quem eu sou”, explica. Aos 52 anos, perto da aposentadoria, ela conta que abandonou os embates diários com professores, professoras e demais servidores. “Já fui a travesti louca que briga. Eu cansei. Já construí meu legado.”

Permanência se constrói em rede

A permanência de estudantes trans, na visão de Silvana de Souza Nascimento, depende de uma escola menos isolada. Isso significa criar canais de diálogo com famílias, associações, sociedade civil e serviços de saúde. Quando há transfobia, profissionais da educação precisam mediar conflitos sem reduzir a identidade de gênero à sexualidade ou a ameaça à família, como muitos acreditam.

“É fundamental um trabalho contínuo de base educacional, de formação dos educadores, dos conselhos escolares e das comunidades do entorno, com campanhas para mostrar que as identidades trans não contaminam, não são uma doença, são uma condição humana que sempre existiu e vai continuar a existir. Elas são múltiplas e não estão vinculadas a nenhuma perversão“, discorre.

A ideia de família brasileira, sublinha Nascimento, é mais diversa do que o senso comum admite. “As famílias sempre foram plurais no Brasil, com casais homoafetivos, mães solo e avós e tias cuidando das crianças.” E lembra que acolher uma criança trans não rompe laços e pode, inclusive, fortalecer valores de cuidado.

"Reconhecer a diversidade e a pluralidade de corpos e pessoas faz com que a ciência seja construída de forma mais interessante e criativa"

Essa perspectiva impede que a educação seja pensada à parte de raça, classe, território e renda. Para Nascimento, transfobia e racismo andam juntos no país. Assim, quando se fala em cotas trans, não se trata de imaginar uma experiência homogênea, mas, sim, interseccional: pessoas trans e travestis são também negras, indígenas, pobres, periféricas, estudantes de escola pública.

Do acesso ao diploma

No ensino superior, as reservas de vagas para trans são um passo importante, mas não encerram a questão. Na verdade, são apenas o início. “Elas criam a iniciativa que possibilita que uma pessoa trans entre naquele espaço, mas não garantem que ela permaneça”, diz Sara Wagner York. A imagem que a educadora traz é a de alguém que é convidada para uma festa onde quase ninguém se preparou para recebê-la: é possível circular por ali, mas à custa de uma ginástica permanente.

Silvana de Souza Nascimento sinaliza que as universidades precisam combinar cotas e permanência estudantil, olhando para a saúde mental e física, com redes de cuidado, normativas de nome social, protocolos contra discriminação transfóbica e banheiros agênero. Também devem formar docentes. “Tudo faz parte do letramento trans”, afirma, comparando a necessidade a um trabalho contínuo de letramento racial.

Mesmo a passos lentos, a universidade mudou, muito porque estudantes, professores e pesquisadores trans, travestis e não-binários chegaram. Nos últimos anos, Nascimento identifica um crescimento dessa população na graduação, no mestrado, no doutorado e na docência.

Essa presença pressiona currículos, bibliografias e formas de produzir conhecimento. Não basta colocar pessoas cis falando sobre pessoas trans: é preciso incorporar autorias trans. “Reconhecer a diversidade e a pluralidade de corpos e pessoas faz com que a ciência seja construída de forma muito mais interessante e criativa.”

Sara Wagner York chama essa disputa de combate ao “trans epistemicídio”, a forma como conhecimentos produzidos por trans e travestis são apagados ou deslegitimados. A presença de docentes trans altera aquilo que é ensinado: abre outras rotas, cita outros corpos, apresenta novas referências. O sujeito que antes precisava ser traduzido por um especialista passa a falar por si.

Fonte: Gama Revista

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