gshow conversou com uma das maiores cartunistas e chargistas do Brasil, que resolveu viver a própria verdade ao tornar público, em 2010, que se identificava como transgênero
Medir a passagem do tempo é simples quando o marcador é o curso real da vida, com os segundos, dias e meses que se aprende a contar ainda na infância, mas, pode ser um pouco mais complexo e (por que não?) mágico quando nessa conta entram as vivências de cada um. Dessa forma, trajetórias como a de Laerte Coutinho, que completou 75 anos de vida no início de junho, mês do Orgulho LGBTQIAPN+, deveriam ter facilmente algumas décadas acrescentadas a ela, afinal, ser intensa tem dessas coisas.
Um bom exemplo disso é a virada na vida da paulistana, que, em 2010, resolveu tornar pública a realidade que já vivia dentro de si: se identificava como mulher transgênero, ou seja, alguém cuja identidade de gênero difere do sexo biológico que lhe foi atribuído ao nascer.
"Quando falavam: 'Ah, você está transitando: era homem e está virando mulher'. A gente não vira mulher, a gente transita, vive uma ideia de gênero que nos é peculiar, específica e é isso que podemos fazer", reflete a artista em entrevista ao gshow.
A transformação pela qual passou começou meses antes e foi registrada de maneira delicada por meio de um de seus maiores talentos: a arte de desenhar. Ao falar sobre a identificação e uso de roupas e acessórios associados ao universo feminino, o chamado crossdresser, o simpático Hugo, criado nos anos 1990, aos poucos tornou-se a vibrante Muriel, que se juntou a outros tantos personagens memoráveis de seu acervo.
"Piratas do Tietê", "Homem Catraca" e "Los Três Amigos" -- este em parceria com os cartunistas Angeli, Glauco (1957-2010) e, mais tarde, Adão Iturrusgarai -- são alguns dos trabalhos de Laerte, uma das grandes chargistas e cartunistas do Brasil. Foi ao lado dos renomados quadrinistas, que integrou também a equipe de roteiristas das extintas TV Colosso (1993-1997) e TV Pirata (1988-1992).
Reservada sim, mas não calada
Como era de se supor, Laerte não se furta a opinar diante de assuntos que considera importantes, como a relevância da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ que acontece anualmente em São Paulo. Para ela, o clima de celebração visto no evento, não reflete a realidade no Brasil.
"É um carnavalzão, uma festa. É positivo, é bom. Não vejo movimentos assim como coisas cientificamente organizadas e objetivamente construídas para produzir um determinado efeito social", avalia ela, destacando que a Parada cresceu, porque é esse o tamanho que deve ter. "Ao mesmo tempo, não é um atestado que as relações do Brasil estão saudáveis. Pelo contrário, as coisas estão bem difíceis. A Parada, portanto, é parte de uma realidade que é ambígua".
O futuro é uma incógnita para Laerte (e para quem não é?), mas a vida mais introspectiva já é o presente, até mesmo no campo sentimental. "Nossas partes internas são esquisitas, mas fazemos o melhor que podemos. Estou numa idade que não tenho mais vontade de sair por aí namorando, por exemplo, e, se eu tivesse, certamente, não seria com homens. Por que? Não sei", conta, bem-humorada.
"Gostava de namorar. Qual era o problema de eu ter um namorado homem? Aparentemente nenhum, mas aqui, dentro da minha cabeça, sim, tinha esse problema", pondera, acrescentando ter mantido os relacionamentos homoafetivos reservados. "Nunca tive um namorado homem ostensivo e visível".
"O fato de ter chegado à conclusão que curto relações homossexuais não quer dizer que no dia seguinte eu saia por aí tendo relacionamentos homossexuais abertos, tranquilos e evidentes. Não! A vida é assim: não transformamos as coisas do jeito que gostaríamos".
Chegada aos 75 anos
Durante o Mês do Orgulho, muito se falou sobre a importância da representatividade, assim como de celebrar as pequenas batalhas que a comunidade LGBTQIAPN+ tem vencido dia após dia. Resistir é o verbo de quem só queria mesmo existir, com qualidades, defeitos, alegrias e tristezas, como qualquer um, sem precisar de validação alheia, um dia de cada vez, como faz Laerte.
"Gostaria muito de poder voltar atrás e fazer tudo diferente, mas, se voltasse atrás, perderia a consciência também das besteiras que fiz até os 75 anos. No fim, tudo empata. [...] Queremos a cabeça e a memória que temos hoje, só que eu queria ter corpinho de 20 [anos], a bunda no lugar (risos).
Fonte: Gshow
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