'Família tem a ver com amor e respeito', diz esposa de homem trans que deu à luz pela primeira vez em hospital estadual da Paraíba


Gisele Castro, mãe da pequena Iara, conversou com o g1 sobre família e desafios da paternidade e maternidade transsexual.

Gisele Castro, mãe de Iara, a primeira bebê gerada por um homem trans a nascer no sistema público da Paraíba, em João Pessoa, conversou com o g1 sobre a família e a gestação. Iara é filha de Gisele, uma mulher trans, e de Daniel Valentim, um homem trans que gerou a criança. A gravidez foi planejada pelo casal.

“A gente quer falar para a sociedade que família tem a ver com amor, respeito e união. Então, se você tem aí esses três ingredientes, você tem uma família”, afirmou a mãe.

O casal que mora em Esperança, no Agreste da Paraíba, se conheceu pela internet há quatro anos. Gisele Castro é médica veterinária e professora universitária, enquanto Daniel Valentim é estudante de Agronomia. O desejo de ter um filho é antigo e, em 2023, veio a primeira tentativa. Gisele relata que, para um casal transsexual tentar engravidar, é necessário parar com o tratamento hormonal, o que pode gerar disforia.

"No meu caso, uma mulher trans toma um hormônio feminilizante. E, no caso dele, homem trans, toma um hormônio masculinizante. Aí é muito ruim, por um certo lado, porque, quando a gente tem, quando a gente quer engravidar, a gente tem que parar com esses hormônios. E aí as características masculinas e femininas, elas voltam nos nossos corpos, o que traz algo chamado de disforia, que é um desconforto".

Meses depois, Daniel e Gisele voltaram a tentar novamente, e a gravidez veio no final de 2025. Agora, em junho de 2026, a pequena Iara nasceu, trazendo felicidade para toda a família.

"Nossa família ficou muito feliz. Então, a gente teve um acolhimento de grande parte da família. É, o que nos deixa bastante contentes também. A minha sogra, a mãe de Daniel, foi a primeira pessoa a visitar; A minha mãe também acolheu muito bem".

Para Gisele, contar a história da família ajuda a mostrar que casais LGBTQIAP+ podem oferecer um ambiente saudável para criar um filho, ambientes esses que nem sempre são oferecidos por famílias heteronormativas. Segundo ela, o respeito, o amor e o cuidado são mais importantes do que a configuração familiar.

"Então, às vezes, você tem um casal que a gente chama de heteronormativo, mas que tem violência, que tem traição, que tem várias coisas ruins e que deixa a desejar no sentido do amor, no sentido da fraternidade, no sentido da união e do respeito. E que a gente quer mostrar que não precisa ser heterossexual e cis, homem cis e mulher cis, para ter uma família."

Terapia hormonal e gestação

Para que a gravidez fosse possível, Gisele e Daniel precisaram interromper temporariamente a terapia hormonal, tratamento utilizado por pessoas trans para desenvolver características físicas alinhadas à identidade de gênero, uma vez que o tratamento promove alterações no sistema reprodutor.

"Casais trans não são estéreis. O que acontece com alguns casais trans é porque o sistema reprodutor se modifica após a utilização dos hormônios, mas essa modificação pode ser revertida,, a partir de um acompanhamento médico; foi o que aconteceu com a gente. Eu tinha mais de 15 anos de hormonioterapia e consegui reverter", explicou.

A interrupção da terapia hormonal, no entanto, trouxe desafios para o casal. Gisele explica que, sem os hormônios, algumas características físicas começam a mudar, o que pode provocar disforia de gênero. A condição é caracterizada pelo sofrimento ou desconforto causado pela incompatibilidade entre a identidade de gênero da pessoa e características físicas associadas ao sexo atribuído no nascimento.

"No meu caso, uma mulher trans torna um hormônio feminilizante. E, no caso dele, homem trans, toma um hormônio masculinizante. Aí é muito ruim, por um certo lado, porque, quando a gente quer engravidar, a gente tem que parar com esses hormônios. E aí as características masculinas e femininas voltam nos nossos corpos, o que traz algo chamado disforia, que é um desconforto com as características indesejadas".

Escolha do hospital

Moradores da cidade de Esperança, Daniel e Gisele começaram a fazer o pré-natal em Campina Grande.A gestação foi classificada como de alto risco logo no primeiro mês, após Daniel ser diagnosticado com trombose, uma alteração sanguínea comum em gestantes. O casal também recebia assistência do ambulatório para pessoas transexuais vinculado ao Hospital de Trauma de Campina Grande.

Apesar do acompanhamento, Daniel Valentim sentia desconforto e medo do preconceito por ser o primeiro homem trans gestante na unidade. A insegurança aumentou ao ser informado de que a obstetra responsável pelo pré-natal não realizaria o parto, que ficaria a cargo do médico plantonista do dia.

"Apesar de ter tido um pré-natal muito tranquilo em outra unidade, eu sentia que o lugar ideal para o nascimento de Iara era o Hospital da Mulher, não apenas pela estrutura. O carinho dos profissionais, o acolhimento, a segurança com a qual todo o procedimento foi conduzido apenas confirmaram esse sentimento. Foi um parto cercado de amor e respeito, um momento que jamais vamos esquecer”, afirmou o pai de Iara.

A busca por um ambiente mais seguro levou o casal a pesquisar outras opções. Eles descobriram que o Hospital da Mulher, em João Pessoa, realiza cirurgias de mastectomia em homens trans, encaminhados pelo Espaço LGBT Clementino Fraga. Isso indicava que os profissionais da unidade já eram treinados para o acolhimento desse público. O depoimento positivo de uma amiga referendou a escolha pela maternidade, inaugurada há pouco mais de um ano.

Com a ajuda do Ambulatório de Saúde Integral para Travestis e Transexuais (Ambulatório TT) Fernanda Benvenutty, em João Pessoa, o casal conseguiu uma vaga e transferiu o pré-natal para o Hospital da Mulher no oitavo mês de gestação. O médico responsável avaliou os exames feitos em Campina Grande, constatou que a saúde de Daniel estava em ordem e confirmou que a unidade estava apta a recebê-lo de forma adequada.

A decisão se mostrou acertada. Segundo Gisele, a expectativa não decepcionou, e a experiência no Hospital da Mulher foi acolhedora e livre de preconceitos por parte de toda a equipe.

Para o casal, a chegada de Iara é a prova de uma união de sucesso. Eles destacam que o nascimento da criança é um ato divino e que a família é um espaço sagrado, construído com base no afeto e no respeito mútuo.

Fonte: G1 Paraíba

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