A história de Danielle, mulher trans que quebrou barreiras no transporte de Montes Claros


Todos os dias, centenas de passageiros embarcam na linha 7101 do transporte coletivo urbano de Montes Claros. Muitos já conhecem o sorriso, a simpatia e o profissionalismo de Danielle Aguiar Silva, de 28 anos. O que nem todos sabem é que, por trás do volante, existe uma história de superação e conquista de espaços em um mercado de trabalho ainda marcado pela exclusão de pessoas trans.

Em 2025, uma nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelou que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente no Brasil em 2023, índice 6,8 pontos percentuais inferior ao da população geral. Entre as mulheres trans, a desigualdade é ainda maior: a taxa de participação no mercado formal é de 20,7%, contra 31,1% entre homens trans. É nesse cenário que Danielle se destaca, ocupando diariamente um espaço historicamente cercado por preconceitos e barreiras.

Moradora do bairro Nossa Senhora das Graças, Danielle é apontada pelo Portal Trans Emprego como a primeira mulher trans a atuar como motorista do transporte coletivo urbano em Minas Gerais. Há três anos na profissão, ela realiza um sonho de infância que parecia distante, mas que nunca deixou de existir. “Eu sempre tive o sonho de ser motorista de ônibus. Na adolescência, minha vida tomou outros rumos. Fiz curso de cabeleireira, me formei em Educação Física, mas esse sonho nunca saiu de dentro de mim”, conta.

Antes de assumir o volante, Danielle trabalhou como cabeleireira e, durante a pandemia, passou a atuar como atendente em uma rede de supermercados. Foi nesse período que surgiu a oportunidade que mudaria sua trajetória. Ao saber de um processo seletivo para motoristas, conquistou a habilitação categoria D e participou da seleção. “Quando vi que meu sonho estava sendo realizado, fiquei muito emocionada. Hoje sou muito feliz no meu trabalho e com o que faço”, afirma.

 APOIO FAMILIAR FEZ A DIFERENÇA

Danielle iniciou sua transição de gênero aos 13 anos, ainda durante a vida escolar. Segundo ela, a descoberta e a aceitação em casa aconteceram naturalmente. Segundo ela, a preocupação dos pais sempre foi com o preconceito que poderia enfrentar fora de casa.

“Tive muito apoio da minha irmã Aline, dos meus pais e da minha melhor amiga de infância, Geciane. Sou privilegiada por ter esse suporte familiar, pois, infelizmente, a realidade da maioria das pessoas transexuais no Brasil é bastante diferente. Muitas vezes, a falta de apoio familiar e de oportunidades de emprego empurra pessoas trans para situações de vulnerabilidade. O apoio da família é fundamental”, enfatiza.

 O DIREITO DE SER RECONHECIDA

Outra conquista importante na vida de Danielle foi a retificação de seus documentos. Hoje, seu nome e gênero feminino constam em todos os registros oficiais. No entanto, o processo foi longo e burocrático. De acordo com a motorista, na época, foi necessário apresentar laudos psiquiátricos e psicológicos, contratar advogado e até escrever uma carta à mão para o juiz explicando os motivos pelos quais queria alterar os documentos.

Desde 2018, segundo a Defensoria Pública, o Conselho Nacional de Justiça simplificou o processo de alteração do registro civil de homens trans, mulheres trans e travestis. Isso permite que a mudança do prenome e do gênero seja feita mediante um processo administrativo, diretamente no cartório, sem a necessidade, como acontecia até então, de um processo judicial e decisão favorável do juiz. 

“Ser reconhecida oficialmente como quem sou trouxe dignidade e respeito. Ocupar esse espaço tem um significado ainda maior. É a materialização do meu direito de ir e vir, de estar onde eu quiser, de caminhar de cabeça erguida. Representar mulheres trans no transporte público é muito gratificante”, pontua a profissional.

 PRECONCEITO

Ao longo dos três anos na função, Danielle afirma nunca ter enfrentado episódios diretos de preconceito no trabalho, embora reconheça que a inclusão ainda seja um desafio. Segundo ela, apesar de perceber olhares curiosos em alguns momentos, sabe que muitas mulheres trans ainda enfrentam situações difíceis diariamente. A motorista também chama atenção para a presença ainda reduzida de mulheres em funções tradicionalmente ocupadas por homens. Segundo ela, na empresa onde trabalha, com ela, são três mulheres motoristas. “É um número muito pequeno. As mulheres, de forma geral, precisam ter mais oportunidades em áreas que sempre foram vistas como masculinas. E a diversidade no mercado de trabalho beneficia toda a sociedade e que as empresas têm papel fundamental nesse processo”.

Ser motorista de transporte público vai além da realização de um sonho profissional. Para Danielle, ocupar esse espaço tem um significado ainda maior. Com orgulho de sua trajetória, ela espera inspirar outras pessoas que enfrentam desafios semelhantes. “É a materialização do meu direito de ir e vir, de estar onde eu quiser, de caminhar de cabeça erguida. Representar mulheres trans no transporte público é muito gratificante. Quero mostrar para quem está iniciando sua transição que é possível ocupar qualquer espaço. Podemos ser quem somos, realizar nossos sonhos e sermos respeitadas. O mais importante é nunca desistir de acreditar que temos capacidade para chegar onde quisermos”, pondera a motorista.

Fonte: Jornal O Norte de Minas

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