Artigo refuta tese da suposta vantagem universal das mulheres trans nos esportes



Pesquisadores brasileiros realizaram a maior revisão sistemática já publicada sobre o tema e não encontraram diferenças significativas entre os marcadores de desempenho físico das mulheres trans e cis

Em meados de janeiro, quando a Suprema Corte dos Estados Unidos se reuniu para julgar os recursos de dois estados que baniram mulheres trans de competições esportivas, os argumentos das procuradorias de Idaho e Virgínia Ocidental, bem como do representante do governo Trump, era de que haveria uma vantagem inerente das mulheres trans sobre as mulheres cis nos esportes. Por isso, banir as mulheres trans dos torneios seria uma forma de “proteger o esporte feminino”. Esse argumento, bastante enraizado no senso comum e que vem sendo reproduzido também no Brasil, acaba de ser refutado pela maior revisão sistemática já publicada sobre o assunto.

O trabalho é assinado por um grupo de pesquisadores brasileiros liderados pelo professor Bruno Gualano, da Faculdade de Medicina (FM) da USP. O grupo avaliou um conjunto de 52 estudos indexados em repositórios científicos para entender as diferenças nos indicadores de desempenho esportivo de mulheres trans e homens trans, na comparação com mulheres cis e homens cis. O artigo relatando os resultados da revisão foi publicado na semana passada no British Journal of Sports Medicine, uma das publicações mais prestigiosas do mundo no campo da ciência dos esportes.

“O desempenho esportivo envolve condição física, técnica, tática, psicologia, experiência e contexto da modalidade. Não existe um único marcador que capture tudo. Então, a gente usa marcadores gerais de desempenho. Capacidade física é um marcador de desempenho. Força de membros inferiores, força de membros superiores, o consumo máximo de oxigênio, são indicativos. Não necessariamente quem tem esses atributos vai ganhar. Ainda mais quando a gente pensa em um esporte como, por exemplo, futebol, basquete ou vôlei, que envolve um talento inato do sujeito também, habilidades específicas, desempenho coletivo e contingências de uma partida. Isso é muito difícil de mensurar em estudos científicos”, explica Gualano.

Os 52 estudos avaliados pelos pesquisadores brasileiros entraram na revisão porque apresentavam medidas comuns de marcadores e valências físicas, permitindo uma comparação conjunta dos dados. O conjunto de estudos contém dados sobre desempenho fisico e composição corporal de 6.485 participantes, sendo 2.943 mulheres trans, 2.309 homens trans, 568 mulheres cis e 665 homens cis, com idades entre 14 e 41 anos.

Um dos achados mais importantes dessa análise conjunta dos dados – que os cientistas chamam de meta-análise – é a de que, de um a três anos após o início da terapia hormonal, mulheres trans têm maior quantidade de massa magra que mulheres cis, mas indicadores como força nos membros inferiores e superiores e consumo máximo de oxigênio não são diferentes entre os dois grupos.

Gualano chama a atenção para o fato de que os estudos avaliados são de qualidade muito variada, geralmente muito baixa, com curta duração de acompanhamento dos participantes e uma série de limitações metodológicas. Por exemplo, há pouquíssimos estudos que se aproximam do “padrão-ouro” da medicina, os chamados estudos randomizados e com grupo controle. No entanto, essas limitações já eram esperadas pelos pesquisadores brasileiros devido ao tamanho da população trans e às implicações éticas das metodologias usadas nos estudos.

“Quando a pessoa faz a transição de gênero, o que você pode oferecer como alternativa a ela, num estudo randomizado e controlado? Seria digno, do ponto de vista humano, você deixar uma pessoa de fora do tratamento que alivia seu sofrimento, que é a transição hormonal, para ela fazer parte de um grupo controle? Esse é um embaraço ético que se apresenta em pesquisas dessa natureza, com essas pessoas. Isso já é muito bem conhecido”, diz o professor da USP.

A principal conclusão da revisão, explica o docente, tem tanto a ver com os achados da meta-análise quanto com as limitações dos estudos existentes sobre os indicadores de desempenho esportivo de pessoas que fizeram transição hormonal de gênero.

“Quando a gente olha para esses dois dados combinados, baixa qualidade metodológica, que se reflete em incertezas na literatura, com a ausência de diferenças para a capacidade física entre mulheres trans e mulheres cis, a gente conclui o seguinte: que a crença na vantagem competitiva, automática e universal de mulheres trans versus cis não se sustenta em boas evidências empíricas. Está muito claro isso. Primeiro, porque as evidências são frágeis e, segundo, porque, na média, elas não apontam isso, ao contrário do que muitas pessoas acham”, afirma Gualano.

Não existem dados sobre atletas de alto desempenho

Diante das pressões pelo banimento completo das atletas trans nos Jogos Olímpicos de 2028, a serem realizados em Los Angeles, nos EUA, o Comitê Olímpico Internacional (COI) encomendou em setembro uma avaliação técnica que deverá embasar a nova política da organização para as modalidades femininas. No último domingo, o site Inside the Games noticiou que o Grupo de Trabalho do COI para a Proteção da Categoria Feminina encerrou seus trabalhos após consultas com especialistas em direito, medicina e direitos humanos, além de partes interessadas, e que a organização deve divulgar uma nova política unificada nos próximos meses.

Na opinião de Bruno Gualano, uma análise justa deveria ser feita modalidade a modalidade a partir de evidências científicas robustas. “É importante enfatizar o que nosso estudo não afirma. O nosso estudo não fala que no alto nível, no esporte de alto desempenho, as mulheres trans têm vantagem em relação às mulheres cis ou o inverso. E a gente não fala isso por um motivo muito simples: porque esses estudos não existem, e não existem porque é raro encontrar mulheres trans competindo na elite do esporte”, afirma.

“Não estou dizendo, veja, que não seja legítima a discussão da participação de uma mulher trans no MMA, no boxe, por exemplo. Caso a caso, isso precisa ser estudado. Mas o banimento total, que abrange até o xadrez, não é algo que faz sentido à luz das incertezas das evidências”, completa o docente.

Ele encara o cerco às atletas trans como um argumento moral baseado em uma premissa falsa e politicamente motivada. “O que não é correto é querer embasar uma normatividade, uma regra universal de proibição de mulheres trans no esporte amador, universitário e profissional, com base numa premissa que é empiricamente testável, e que, até o momento, se mostra falsa”, comenta Gualano.

O professor da USP lembra que o próprio COI menciona em seus documentos oficiais números que indicam a enorme subrepresentação das pessoas transgêneras nos esportes de alto rendimento. Em 2021, o COI informava que menos de 0,001% dos atletas olímpicos se identificavam abertamente como pessoas trans e/ou não binárias, ao passo que estudos estimavam esse grupo entre 0,1% e 1,1% da população mundial. No mesmo ano, um estudo liderado por pesquisadores da Unesp estimou que as pessoas trans correspondem a cerca de 2% da população brasileira. “Ou seja, elas não estão de nenhuma maneira dominando ou aniquilando o esporte feminino. E isso é factual”, reflete.

Fonte: Jornal da USP

Comentários