Allison Montgomery venceu parlamentar que atacou sua identidade de gênero durante a campanha e fez história em estado que aprovou leis contra direitos da população trans
Na reta final da campanha, o deputado republicano Phillip Rigsby fez questão de avisar aos eleitores de Huntsville, no Alabama, que sua adversária era uma mulher trans. Na terça-feira (3), os eleitores escolheram a adversária. A democrata Allison Montgomery venceu com 53,2% dos votos, contra 46,7% de Rigsby, e será a primeira pessoa assumidamente trans na Assembleia Legislativa do estado.
Engenheira de software, Montgomery conquistou o distrito 25 da Câmara estadual. O resultado, ainda extraoficial, foi divulgado pela Secretaria de Estado do Alabama com todas as seções apuradas. Rigsby, que é farmacêutico, ocupava a cadeira desde 2022.
A virada aconteceu em um dos estados mais conservadores dos Estados Unidos. Na mesma eleição, os republicanos mantiveram o governo do Alabama e a maior parte dos cargos em disputa.
Deputado fez da identidade de mulher trans da adversária tema de campanha
O ataque mais direto veio num churrasco anual do Partido Republicano no condado de Madison, duas semanas antes da votação. Rigsby falou de uma excursão escolar à capital do estado, que, por coincidência, também se chama Montgomery.
“Quando você levar sua filha do quarto ano a Montgomery numa excursão da escola, vai entrar no gabinete de uma pessoa transgênero. Essa pessoa tem todo o direito de viver como quiser”, disse o deputado, segundo o Alabama Political Reporter. “Mas, quando alguém escolhe mudar de gênero, isso muda tudo: como encara as coisas, como enxerga as políticas públicas e como conduz os projetos de lei.”
Rigsby disse que não queria atacar a adversária pessoalmente, mas que ninguém poderia procurá-lo depois da eleição para dizer que não sabia.
Montgomery respondeu que o assunto só existia na boca do adversário. “Quando eu bato na porta das pessoas e falo do que defendo, nenhum de nós liga para o fato de eu ser transgênero. Mas Phillip Rigsby liga. Eles são obcecados por mim”, afirmou. “Se eu não falo disso e ninguém percebe conversando comigo, que diferença faz? Por que ele precisa trazer isso à tona? Estão tentando distrair vocês.”
Quem é Allison Montgomery
Montgomery nasceu e cresceu em Huntsville, estudou em escolas da cidade e se formou na Universidade do Alabama em Huntsville. Trabalha em projetos de tecnologia ligados ao Redstone Arsenal, complexo militar da região.
Nos últimos anos, foi uma das lideranças da Alabama Trans Rights Action Coalition. Ela conta que entrou na militância por um motivo prático: “Eu não queria que fosse crime ir ao supermercado. Não queria que fosse crime um médico me receitar o hormônio que salvou a minha vida.”
Na campanha, prometeu expandir o Medicaid, programa de saúde para pessoas de baixa renda, criar um salário mínimo estadual, incentivar a construção de moradias baratas e acabar com o imposto sobre alimentos. Também quer mais dinheiro para as escolas públicas e a revisão do programa estadual que paga mensalidades em escolas privadas.
Alabama aprovou lei que não reconhece identidade trans
Montgomery vai trabalhar na mesma Assembleia que aprovou a lei conhecida como “What Is a Woman?” (“O que é uma mulher?”), sancionada pela governadora republicana Kay Ivey em fevereiro de 2025. O texto define homem e mulher pelo sexo atribuído no nascimento e ignora a identidade de gênero. Montgomery acusa Rigsby de ter defendido a norma e diz que ela serve para o governo “espiar a roupa íntima” das pessoas.
A União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) e outras entidades consideram a lei discriminatória contra pessoas trans e intersexo. Os defensores afirmam que as definições são necessárias para manter separados espaços e políticas baseados no sexo. A eleição de Montgomery não muda essas regras: para isso, seria preciso nova votação na Assembleia ou decisão judicial.
O mandato dela é estadual, de quatro anos, e não no Congresso em Washington. Lá, a primeira pessoa assumidamente trans eleita foi a democrata Sarah McBride, de Delaware, em 2024. Em março de 2025, a Fórum mostrou um deputado republicano atacando McBride durante uma sessão da Câmara.
Fonte: Revista Fórum

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