Mulher trans é a primeira pessoa no Brasil a receber tratamento experimental contra o HIV com aplicação a cada quatro meses
Pisci Bruja, mulher trans, ativista e doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), tornou-se a primeira pessoa no Brasil a receber uma dose experimental de um tratamento contra o HIV com aplicação a cada quatro meses. A iniciativa integra um estudo clínico internacional que investiga alternativas para tornar o tratamento mais espaçado e facilitar a rotina de pessoas que vivem com o vírus.
Após 13 anos utilizando comprimidos diariamente, Pisci iniciou a nova etapa do tratamento em setembro de 2026. A pesquisa, conduzida pela farmacêutica GSK, avalia a eficácia e a segurança de uma combinação de antirretrovirais injetáveis, cabotegravir e rilpivirina, administrados em intervalos de quatro meses.
A proposta busca verificar se o novo esquema mantém os resultados do tratamento convencional de longa duração, que já possui aprovação em outros países com aplicações a cada dois meses. No Brasil, a modalidade experimental está sendo investigada por meio de um estudo que prevê a participação de até 77 pessoas, com conclusão estimada para 2029.
Avanço científico e acesso à saúde
O desenvolvimento de tratamentos de longa duração pode representar uma mudança importante na rotina de pessoas que vivem com HIV, reduzindo a frequência das administrações e oferecendo novas possibilidades de cuidado. A pesquisa também contribui para ampliar o conhecimento científico sobre alternativas terapêuticas e seus impactos na qualidade de vida.
Apesar dos avanços, o tratamento injetável ainda não está disponível de forma ampla no Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, o acesso à terapia antirretroviral no sistema público brasileiro ocorre principalmente por meio de medicamentos orais de uso diário. Os custos elevados e os desafios de incorporação de novas tecnologias permanecem entre as questões que precisam ser enfrentadas para ampliar o acesso.
A participação de Pisci Bruja também destaca a presença de uma mulher trans em uma pesquisa científica de grande relevância para a saúde pública. A representatividade de pessoas trans nos espaços de produção do conhecimento é fundamental para fortalecer a visibilidade de suas trajetórias e ampliar o debate sobre políticas de saúde que considerem diferentes realidades.
Para o FONATRANS, iniciativas como essa reforçam a importância de investir em ciência, garantir o acesso universal à saúde e promover condições dignas de cuidado para todas as pessoas. O avanço das pesquisas precisa caminhar junto com políticas públicas que assegurem que as inovações cheguem à população, sem que barreiras econômicas e sociais impeçam o acesso a tratamentos e à qualidade de vida.
O tratamento citado permanece em fase experimental. Sua eficácia e segurança no intervalo de quatro meses ainda precisam ser avaliadas pelos resultados do estudo clínico.

Comentários
Postar um comentário