Durante participação no podcast Papagaio Falante, apresentador voltou a tratar parlamentar no masculino e utilizou seu antigo nome de registro; episódio acontece meses após outra controvérsia que levou Erika a recorrer à Justiça
O apresentador Ratinho voltou a protagonizar uma controvérsia envolvendo a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). Durante uma participação no podcast Papagaio Falante, na terça-feira (1º), o comunicador voltou a questionar a identidade de gênero da parlamentar, utilizando pronomes masculinos e seu antigo nome de registro.
A nova declaração ocorre meses depois de Ratinho já ter feito comentários considerados transfóbicos contra Erika em seu programa no SBT. O episódio mais recente reacendeu críticas nas redes sociais e provocou novas cobranças por respeito à identidade da deputada.
A utilização deliberada do antigo nome de registro de uma pessoa trans, prática conhecida como “deadnaming”, é apontada por movimentos LGBTQIA+ como uma forma de desrespeito à identidade de gênero e pode contribuir para situações de constrangimento e violência simbólica.
Não é a primeira vez que Ratinho ataca Erika Hilton
A relação entre Ratinho e Erika Hilton já havia sido marcada por uma série de declarações controversas.
Em março de 2026, depois de Erika ser eleita presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, o apresentador afirmou em seu programa que ela não seria mulher por ser uma pessoa trans e questionou sua escolha para comandar o colegiado. As declarações provocaram forte reação pública e foram classificadas como transfóbicas.
Na ocasião, o SBT afirmou repudiar qualquer forma de discriminação e preconceito e declarou que as falas de Ratinho não representavam a opinião da emissora. A empresa informou ainda que analisaria internamente o episódio.
O apresentador, porém, posteriormente afirmou que considerava seus comentários uma manifestação de opinião e declarou que não pretendia mudar sua posição sobre o assunto.
Justiça reconheceu direito de resposta de Erika
A controvérsia de março também chegou ao Judiciário.
Em junho, a Justiça de São Paulo reconheceu o direito de resposta de Erika Hilton e determinou que o SBT veiculasse um vídeo da deputada no Programa do Ratinho, no mesmo horário e com destaque e duração equivalentes às declarações que motivaram a ação. A decisão entendeu que as falas ultrapassaram os limites da crítica política e atingiram a identidade de gênero da parlamentar.
Em agosto, uma decisão da 3ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a determinação, considerando que parte das declarações representou uma desqualificação pessoal e violou o direito à autodeterminação de gênero.
O caso demonstra que o debate envolvendo Erika Hilton e Ratinho deixou de ser apenas uma discussão nas redes sociais e passou a envolver também instituições públicas e o sistema de Justiça.
Repetição de ataques reacende debate sobre transfobia
A nova fala de Ratinho chamou atenção justamente por ocorrer depois de toda essa repercussão.
A repetição desse tipo de estratégia contra uma mulher trans que ocupa um dos espaços mais importantes da política brasileira expõe uma realidade conhecida pela população trans: a tentativa de transformar a identidade de gênero em alvo de disputa, ridicularização ou deslegitimação.
Quem é Erika Hilton
Erika Hilton é deputada federal pelo estado de São Paulo e exerce mandato na Câmara dos Deputados no período de 2023 a 2027. A parlamentar é uma das principais representantes da população trans no Congresso Nacional e atua em diferentes áreas, incluindo direitos humanos, trabalho, combate às desigualdades e defesa da população LGBTQIA+.
Sua trajetória política ganhou projeção nacional antes mesmo da chegada ao Congresso. A eleição para a Câmara Federal marcou uma nova etapa da presença de pessoas trans na política institucional brasileira, ampliando a visibilidade de demandas historicamente marginalizadas.
Por isso, ataques direcionados à sua identidade também são compreendidos pelo movimento trans como ataques simbólicos à possibilidade de pessoas trans ocuparem espaços de poder e decisão.
O problema não é discordar de Erika — é negar quem ela é
A existência de divergências políticas é parte essencial de uma democracia. Parlamentares, apresentadores e cidadãos podem criticar propostas, posicionamentos, votações e decisões políticas.
O limite está justamente no momento em que a identidade de uma pessoa passa a ser utilizada como instrumento de humilhação.
No caso de Erika Hilton, a insistência em tratá-la no masculino ou pelo nome que ela deixou de utilizar não acrescenta qualquer argumento ao debate político. Ao contrário, desloca a discussão para uma tentativa de negar a identidade de uma mulher trans.
Essa distinção é fundamental porque discordar de uma mulher trans não autoriza ninguém a desrespeitá-la por ser trans.
Cobranças também se voltam ao SBT
Após a nova declaração, internautas voltaram a cobrar posicionamentos do apresentador e do SBT, onde Ratinho mantém seu programa.
A emissora já havia se manifestado em março, afirmando repudiar discriminação e preconceito e dizendo que as declarações do apresentador não representavam os valores da empresa.
A repetição de episódios envolvendo a identidade de gênero de Erika, no entanto, levanta questionamentos sobre quais medidas concretas podem ser adotadas para impedir que situações semelhantes continuem acontecendo.
A cobrança ganhou ainda mais força diante das recentes decisões judiciais relacionadas às declarações anteriores do apresentador e do reconhecimento de que determinados ataques ultrapassam os limites da crítica política.
Transfobia não pode ser apresentada como “opinião”
O novo episódio reforça uma discussão que ultrapassa a figura de Ratinho ou de Erika Hilton.
No Brasil, pessoas trans continuam enfrentando diferentes formas de violência e discriminação, inclusive em espaços públicos, institucionais e midiáticos. Quando figuras públicas utilizam sua visibilidade para questionar reiteradamente a identidade de uma pessoa trans, existe um impacto que vai além do indivíduo diretamente atingido.
É por isso que movimentos sociais defendem que liberdade de expressão não deve ser confundida com licença para desumanizar ou discriminar.
No caso de Erika Hilton, a questão ganha uma dimensão ainda maior porque ela ocupa um cargo público e representa milhares de pessoas que, historicamente, foram afastadas dos espaços de decisão.
A insistência em negar sua identidade não apaga quem Erika é. Mas revela como a transfobia ainda encontra espaço quando pessoas trans desafiam lugares que, durante décadas, lhes foram negados.
Até o momento, Erika Hilton não havia se manifestado publicamente sobre o novo episódio. O vídeo com a fala de Ratinho continua circulando nas redes sociais e provocando reações.
Mais uma vez, o debate que fica é maior do que uma celebridade e uma parlamentar: pessoas trans não precisam de autorização para existir, ocupar espaços ou serem tratadas com dignidade. O respeito à identidade de gênero não deveria ser motivo de disputa — deveria ser o mínimo.
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