Cineasta trans Gautier Lee denuncia transfobia durante o Festival de Cinema de Gramado

Artista afirma que teve o nome de registro exposto, foi excluída de diferentes listas de credenciamento e precisou ter seus dados inseridos manualmente para acessar atividades da Residência para Jovens Cineastas. Organização reconheceu falhas e pediu desculpas.

A cineasta e roteirista Gautier Lee, conhecida como Gaut, denunciou ter sofrido uma série de situações de transfobia durante a primeira edição da Residência para Jovens Cineastas, realizada pelo Conexões Gramado Film Market, dentro da programação do Festival de Cinema de Gramado 2026.

Artista trans e não binária, Gaut havia sido selecionada entre os 60 participantes da iniciativa, que reuniu jovens profissionais do audiovisual de diferentes estados brasileiros para três dias de formação, masterclasses, palestras e networking. A programação ocorreu entre 17 e 19 de agosto, em Gramado, no Rio Grande do Sul.

Segundo o relato publicado pela cineasta, uma sequência de episódios de constrangimento e falhas envolvendo seu nome e seu acesso às atividades acabou fazendo com que ela deixasse a residência antes do encerramento.

Nome de registro foi exposto em grupo com mais de 70 pessoas

Um dos primeiros episódios relatados por Gaut ocorreu quando seu nome de registro teria sido compartilhado em um grupo de WhatsApp com os demais participantes da residência.

A cineasta afirma que a inscrição havia sido realizada utilizando seu nome social, Gautier Lee, mas, ainda assim, seus dados de registro foram expostos no grupo. O episódio gerou uma reclamação imediata e um pedido para que a informação fosse corrigida.

Segundo Gaut, posteriormente um novo arquivo foi enviado ao mesmo grupo acompanhado de uma explicação sobre a alteração. Para ela, em vez de solucionar a situação de forma discreta, a medida acabou ampliando a exposição e o constrangimento.

Em sua manifestação pública, a cineasta classificou o episódio como uma forma concreta de apagamento de sua identidade.

“A exclusão foi praticada ao pé da letra. Eu simplesmente deixei de existir”, escreveu.

Falhas também atingiram credenciamento, hospedagem e ingressos

Os problemas, segundo o relato, não ficaram restritos à exposição do nome de registro.

Gaut afirmou que seu nome não aparecia nas listas de credenciamento da residência, na relação de hóspedes do hotel e tampouco nos sistemas de acesso aos ingressos das sessões.

Em diferentes momentos, foi necessário acrescentar seus dados manualmente para que ela pudesse participar das atividades previstas na programação.

A situação ganhou peso especialmente porque a Residência para Jovens Cineastas havia sido criada justamente como uma iniciativa de formação e inserção profissional para uma nova geração do audiovisual. O programa recebeu mais de 200 inscrições e selecionou 60 profissionais de nove estados brasileiros.

Para Gaut, porém, a experiência de exclusão atravessou toda a participação na atividade.

“A transfobia me fez sangrar, literalmente”

Ao relatar publicamente os acontecimentos, a cineasta também descreveu os impactos físicos e emocionais provocados pela experiência.

Segundo Gaut, o episódio afetou inclusive seu corpo. Ela contou que realizava tratamento médico para induzir a amenorreia e que, após anos de tratamento contínuo, seu ciclo menstrual retornou durante a residência.

“A transfobia me fez sangrar, literalmente”, afirmou.

A declaração evidencia que, para além de um erro administrativo, a artista percebeu os episódios como uma experiência de violência e desumanização relacionada à sua identidade de gênero.

Diante da sucessão de situações, Gaut decidiu abandonar a residência antes do encerramento.

Organização reconhece “grave falha humana e operacional”

Após a denúncia ganhar repercussão, o Gramado Film Market se manifestou publicamente e pediu desculpas à cineasta.

Em nota, a organização reconheceu que a exposição dos dados pessoais de Gaut ocorreu em razão de uma “grave falha humana e operacional”. Também admitiu problemas relacionados às listas de credenciamento, hospedagem e acesso aos ingressos.

Segundo a organização, os erros colocaram Gaut em uma “situação que jamais deveria acontecer”.

O Gramado Film Market também afirmou que não compactua com práticas de exclusão ou discriminação e informou que está reavaliando os procedimentos internos de organização e credenciamento para evitar que episódios semelhantes voltem a ocorrer.

A entidade reconheceu ainda que um pedido de desculpas, isoladamente, não seria suficiente para reparar a situação e afirmou estar aberta ao diálogo e à prestação de suporte à cineasta.

Uma relação marcada pelo reconhecimento artístico

O episódio chama atenção também porque Gautier Lee possui uma trajetória anterior de reconhecimento no próprio Festival de Cinema de Gramado.

Em 2021, seu curta-metragem “Desvirtude” foi o grande vencedor da Mostra Gaúcha de Curtas. A produção recebeu quatro troféus, entre eles os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção, além de Melhor Atriz e Melhor Montagem. O filme também venceu o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular na competição de curtas brasileiros.

A obra aborda o racismo a partir da história de uma jovem negra que sofre uma agressão e precisa lidar com as consequências do episódio. O reconhecimento consolidou Gaut como um dos nomes de destaque de sua geração no audiovisual gaúcho.

Cinco anos depois, a artista voltou ao evento na condição de participante de uma iniciativa voltada justamente à formação e à aproximação de novos profissionais do cinema com o mercado audiovisual.

O caso reacende o debate sobre inclusão no audiovisual

A denúncia de Gautier Lee também coloca em evidência um desafio que vai além de um festival específico: a necessidade de que instituições culturais e do setor audiovisual estejam preparadas para garantir respeito à identidade de gênero e aos direitos de pessoas trans e não binárias em todas as etapas de suas atividades.

O uso correto do nome social, o respeito à identidade de gênero e a existência de procedimentos adequados para credenciamento e hospedagem são medidas básicas de acolhimento. Quando esses mecanismos falham repetidamente, a consequência pode ultrapassar o desconforto burocrático e produzir situações de exposição, constrangimento e exclusão.

No caso de Gaut, a sequência de episódios relatados fez com que uma experiência que deveria representar uma oportunidade de formação e desenvolvimento profissional terminasse marcada por sofrimento e pela decisão de deixar a atividade.

A própria organização reconheceu que os procedimentos precisam ser revistos. A expectativa agora é que a apuração interna resulte em mudanças concretas para que participantes trans e não binários possam ocupar espaços de formação, produção e circulação cultural sem que sua identidade seja colocada em dúvida ou transformada em motivo de constrangimento.

O caso de Gautier Lee reforça, assim, que representatividade não se resume a selecionar pessoas diversas para ocupar uma programação. É necessário garantir que essas pessoas sejam recebidas, identificadas, respeitadas e tratadas com dignidade durante toda a experiência.

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