“Três Graças” faz história ao exibir casamento trans no horário nobre da Globo


Na reta final, novela escrita por Aguinaldo Silva dá seu recado em um momento em que pessoas transexuais são perseguidas por movimentos de extrema direita

Em sua última semana, a novela “Três Graças”, de autoria de Aguinaldo Silva, fez história no capítulo de segunda-feira (11) ao exibir o casamento de Viviane (Gabriela Loran), a farmacêutica transexual, com Leonardo Ferette (Pedro Novaes). É a primeira vez que uma novela das 21h da Globo exibe um casamento trans e, no atual contexto do Brasil, onde pessoas transexuais são perseguidas por movimentos de extrema direita, isso é muita coisa e tem vários significados.

Para quem não acompanha a novela “Três Graças”, Viviane é a melhor amiga de Gerluce (Sophie Charlotte), a protagonista que tem como missão desmascarar o vilão Santiago Ferette (Murilo Benício), que tem uma ONG que distribui remédios falsificados na favela da Chacrinha e, além disso, trata-se de um personagem que, desde o início da trama, deixou claro odiar pessoas LGBT, tanto é que expulsou a sua filha de casa, Lorena (Alanis Guillen), que se casou com a investigadora Juquinha (Gabriela Medvedovsky) no mesmo dia e local que Viviane e Léo. Sim, foi uma cerimônia coletiva e LGBT.

Bem resumida a trama geral de “Três Graças“, voltemos ao peso político do casamento de Viviane e Léo: ao dar amplo destaque à personagem de Gabriela Loran, Aguinaldo Silva humanizou uma mulher transexual e a retratou como uma farmacêutica querida por toda a comunidade da Chacrinha e fechou o arco histórico de Viviane com chave de ouro ao casá-la com Léo, que encontrou a sua redenção no amor pela farmacêutica: o rapaz participava dos esquemas do pai e escolheu entregá-lo às autoridades e ficar com ela.

Em um momento em que parlamentares brasileiros de extrema direita se utilizam do ódio às LGBT, mas com foco nas pessoas transexuais, para angariar votos e até mesmo monetizar com tal violência, o casamento entre Viviane e Leonardo tem uma dimensão histórica e política imensa, ainda mais se levarmos em conta que a produção tem tido uma média de 27 pontos de audiência nacional, o que dá aproximadamente 18,9 milhões de telespectadores, isso sem contar o streaming e as redes sociais.

Mas, simultaneamente ao casamento de Viviane e Leonardo, Aguinaldo Silva, que não dá ponto sem nó, retratou o vilão Santiago Ferette em situação decrépita ao saber que os seus planos para impedir o casamento dos filhos deram errado. Cabe lembrar que Santiago tentou assassinar Viviane, mas falhou. Aqui também cabe um destaque para a atuação de Murilo Benício, que interpretou de maneira magistral o quão asquerosa é uma pessoa que odeia a liberdade do outro, neste caso, das pessoas LGBT.

Ao humanizar uma mulher transexual no horário nobre da Globo, “Três Graças” incide no debate sobre os direitos civis das pessoas transexuais e, ao adentrar milhares de lares brasileiros, pode servir como antídoto ao discurso de ódio de grupos políticos de extrema direita, que têm como objetivo resgatar teses odiosas e devolver as pessoas LGBT para a categoria de “anormais”.

A atriz Gabriela Loran comemorou o feito histórico de sua personagem em “Três Graças”:

“Casar na novela das 9 no contexto da Viviane é reescrever a história da teledramaturgia brasileira. Para além da representatividade, estamos falando de algo mais básico e simples! Estamos falando de humanidade. Viviane se tornou maior do que sua condição de vida, Vivi fugiu da caixinha! Viviane é reconhecida nas ruas pelo seu NOME, sua identidade. Lembro quando li o texto do teste para a Vivi e bem ali já sabia o caminho que queria trilhar com essa personagem, além de defendê-la com unhas e dentes. Me entreguei à Vivi e ela a mim. Hoje, lágrimas tomam meu rosto, porque a missão foi cumprida. VIVA a VIVIANE.”

Com o sucesso do casal Lorena e Juquinha, e Viviane e Leonardo, “Três Graças” chega ao fim como um marco histórico entre as novelas das 21 horas. Também dá um salto de qualidade no que diz respeito à construção de tramas LGBT, pois foi além da mera representatividade e entregou tramas com começo, meio e fim, sem medo de sofrer represálias de grupos ultraconservadores. Com tamanho feito, espera-se que as produções posteriores não retrocedam.

Fonte: Revista Fórum

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