Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher existiu por anos sem gerar grande interesse de boa parte dos mesmos parlamentares que agora dizem se importar com ela
A eleição da deputada federal Erika Hilton para a presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados do Brasil desencadeou uma reação furiosa de setores conservadores. O que deveria ser apenas mais um processo interno do Legislativo virou uma tempestade política alimentada pelo pânico moral de sempre. Mas a pergunta que precisa ser feita é simples: por que essa comissão nunca despertou tanta atenção antes?
Durante anos, a Comissão de Mulheres existiu sem provocar grande interesse de boa parte desses mesmos parlamentares que agora dizem estar preocupados com ela. A súbita mobilização não aconteceu porque a pauta das mulheres ganhou centralidade. Ela surgiu quando uma mulher trans chegou à presidência.
Alguns números nos ajudam a colocar essa polêmica em perspectiva. Nos três primeiros anos de mandato, Erika Hilton apresentou 23 projetos de lei voltados à defesa das mulheres, número maior que o de todas as deputadas cis do Partido Liberal (PL) no mesmo período. Isso revela uma contradição incômoda: quem mais grita nas redes sobre a “defesa das mulheres” muitas vezes é quem menos produz políticas concretas para elas.
Se a energia usada por setores bolsonaristas para atacar Erika Hilton fosse direcionada ao combate da violência de gênero, talvez estivéssemos discutindo outro cenário. Em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da última década. Essa é a verdadeira emergência nacional. Ainda assim, parte da direita preferiu transformar a presidência de uma comissão parlamentar em palco para uma guerra cultural.
E o problema não parou em Brasília. Após a eleição de Erika Hilton, parlamentares conservadores em diversas cidades e estados começaram a apresentar projetos para alterar regimentos internos e impedir que mulheres trans presidam comissões de mulheres. Essa onda, claro, também chegou a Belo Horizonte.
Na Câmara Municipal da capital mineira, surgiu a proposta de restringir a presidência da Comissão de Mulheres apenas a parlamentares com “sexo biológico feminino registrado no nascimento”. A iniciativa não apenas ecoa a transfobia que tomou conta do debate nacional, como também ignora a realidade do próprio trabalho legislativo.
Eu sou integrante desta comissão desde o início do ano passado e estou entre as parlamentares mais presentes e produtivas do colegiado. Somente no meu primeiro ano de mandato, apresentei 13 projetos de lei voltados à defesa das mulheres. Enquanto isso, outras parlamentares que hoje se dizem preocupadas com a comissão pouco ou nada contribuíram para fortalecer suas pautas, ou sequer estiveram presencialmente nas reuniões.
Mas, acima de tudo, é preciso lembrar algo fundamental: a comissão é de mulheres, não a comissão “da mulher cis”. O que une mulheres trans e cis é muito maior do que aquilo que supostamente nos separa. Somos todas alvo do machismo estrutural, da misoginia e da violência de gênero.
Quando o debate público se concentra em excluir algumas mulheres em vez de proteger todas, o que está sendo defendido não são os direitos femininos, mas uma agenda de intolerância.
Porque o verdadeiro escândalo não é quem preside uma comissão. O verdadeiro escândalo é que, enquanto essa polêmica domina o debate, mulheres continuam morrendo.
Fonte: Jornal O Tempo - Por Juhlia Santos
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