Histórias de um país que ainda não aprendeu a garantir dignidade a todos os corpos
Liliane Moura e
Priscilla Soares
“Uma mulher trans com 60 anos, com baixa escolaridade,
vivendo com HIV e um salário mínimo. Isso não é vida, é sobrevivência. A gente
mata um leão por dia”. O desabafo é de Júlia Roberta Malakowski, de 62 anos.
Mulher trans desde os 16 anos que encontrou na prostituição sua única fonte de
renda após ser demitida de empregos formais. Moradora de Canoas, na região
metropolitana de Porto Alegre, Júlia vive com HIV há 25 anos e depende do
Benefício de Prestação Continuada (BPC), auxílio mensal do governo para pessoas
de baixa renda, que paga um salário mínimo, mas não garante o básico:
alimentação, aluguel e saúde.
O medo de perder o benefício faz parte de sua rotina. As reavaliações são desgastantes e humilhantes, agravando dores, cansaço e dificultando a manutenção de consultas e tratamentos. “Às vezes não tem nem dinheiro pra ir no postinho”, conta. Júlia ainda comenta que o acolhimento e o apoio não vêm das políticas públicas, mas dos seus vizinhos. “A periferia aceita mais a gente do que o centro”, explica. Outra questão é a discriminação no mercado de trabalho, o mesmo que fomenta a vulnerabilidade econômica. “Não adianta o poder público dar uma capacitação, se ao chegamos no mercado de trabalho não nos empregam. E nós continuamos na estaca zero, sempre estamos na estaca zero”, reclama.
Diante desse cenário, envelhecer no Brasil ainda é um privilégio raro para pessoas transexuais. Muito antes de chegarem à velhice, elas enfrentam trajetórias marcadas por exclusões e violências sucessivas, desde a infância até a vida adulta. Para se ter uma ideia da problemática, somente em 2024, 105 pessoas trans foram mortas no país, de acordo com a pesquisa do Registro Nacional de Mortes de Pessoas Trans no Brasil. Os dados do estudo também apontam que 93% das vítimas são mulheres trans ou travestis. Além disso, as notificações de violência contra homens trans cresceram 161% em cinco anos (2019-2023), segundo registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan). As agressões físicas, psicológicas e sexuais estão entre as mais frequentes, com destaque para a região Sul, onde o aumento foi de 284%.
Uma geração
interrompida pela aids
Um estudo do Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre
(RS), apontou que a prevalência de HIV entre a população analisada é 64%
superior ao limite de referência da Organização Mundial da Saúde (OMS). O
resultado expõe desigualdades persistentes, com impacto mais forte sobre a
população LGBTQIAPN+, especialmente pessoas trans.
No Brasil, o envelhecimento da população LGBTQIAPN+ é um processo recente e marcado por profundas transformações. Segundo o professor e pesquisador Fernando Seffner, da UFRGS, a epidemia de aids nos anos 1980 e 1990 redefiniu esse percurso: “A aids levou uma geração inteira. E quem sobreviveu, sobreviveu ao estigma”, explica o professor.
Décadas depois, o HIV permanece presente na vida de parte da população idosa trans, agora atravessada pela pobreza, pelo desgaste físico e pela falta de apoio. No caso de Júlia, o tratamento exige rotina e deslocamentos constantes, o que é incompatível com sua realidade. “Todo mundo diz que tem tratamento, mas não é fácil. A gente sente dor, sente solidão”, relata.
Sem redes familiares, filhos ou parceiros de longo prazo, muitas pessoas trans envelhecem em isolamento. Para Marina Reidel, de 54 anos, professora e ativista, “a solidão é quase uma epidemia entre as pessoas trans mais velhas”. Em razão do acúmulo de discriminações que impactam a saúde mental, a população idosa LGBTQIAPN+ apresenta taxas maiores de depressão, isolamento e suicídio. Júlia descreve esse cenário: “Nós somos terrivelmente discriminadas, tanto na sociedade como no trabalho, como na saúde pública. Isso faz com que nos enclausuremos em nossas minúsculas casas. Muitas amanhecem mortas, enforcadas, mortas de depressão”, relata.
Intersecções que
ampliam a desigualdade
A velhice trans é moldada por múltiplos marcadores sociais,
como gênero, raça, classe e território. O geriatra Milton Crenitte sintetiza
essa diferença ao afirmar que “é completamente diferente a realidade de um
homem cis, gay, branco e rico morando no centro de São Paulo e a de uma mulher
trans, preta e periférica.”
Uma pesquisa publicada em 2023, da qual Crenitte é coautor, mostra que essa desigualdade também se manifesta no acesso à saúde: mais da metade das pessoas LGBTQIAPN+ acima de 60 anos não acredita que os profissionais estejam preparados para atendê-las, e cerca de um terço aponta desconhecimento sobre identidade de gênero e orientação sexual.
Dessa maneira, fatores como racismo, sorofobia, classismo e capacitismo se sobrepõem ao transfeminicídio e à discriminação cotidiana e aprofundam as desigualdades sociais. Cada um deles reforça as barreiras de acesso a direitos fundamentais, inclusive o direito básico de chegar a um atendimento de saúde. “O acesso à saúde já é mais custoso para pessoas LGBTQIAPN+. Quando a pessoa chega até mim, ela já venceu uma barreira enorme”, afirma Crenitte.
Para o geriatra, a ausência de pesquisas governamentais sobre a expectativa de vida da população trans, realizadas por órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), impede a formulação de políticas públicas. Ele explica: “Cunhou-se um número cabalístico de 35 anos como expectativa de vida. Mas isso não é 100% verdadeiro. Esse estudo, muito importante, é de pessoas assassinadas. Ainda é uma escolha política não conhecer a realidade da sua população”, analisa.
O pesquisador Fernando Seffner também reforça que sem dados oficiais, não é possível planejar, orçar ou garantir direitos a essa parcela da população. Além disso, o Estado brasileiro precisa reconhecer que pessoas idosas trans existem e são portadoras de direitos. “A consequência é simples: a velhice trans se sustenta em trajetórias individuais de resistência e em redes comunitárias improvisadas”, comenta ele.
A violência institucional presente no cotidiano é outro problema. Atendentes que chamam pelo nome de batismo, serviços despreparados e consultas marcadas por constrangimento. “No balcão, chamam a gente pelo nome de batismo. Isso destrói”, relata Marina. Ela também enfrenta uma batalha judicial para ter acesso à cirurgia de redesignação sexual no sistema público de saúde. “É cansativo ter que provar o tempo todo quem você é”, diz ela.
Embora exista, desde 2011, a Política Nacional de Saúde Integral da População LGBTQIAPN+, que prevê atendimento humanizado, respeito ao nome social e capacitação das equipes do SUS, especialistas apontam que sua implementação ainda é frágil e irregular e que grande parte das unidades não cumpre as diretrizes.
Memória,
representatividade e futuro
Para tentar enfrentar algumas dessas lacunas, tramita na
Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 2670/2025, conhecido como Lei Sissy
Kelly, em reconhecimento à ativista travesti, de autoria da deputada Duda
Salabert. A proposta cria uma política nacional para pessoas idosas LGBTQIAPN+,
prevendo a capacitação de equipes de saúde, a produção de dados estatísticos e
a inclusão dessa população em instituições de longa permanência, respeitando-se
a identidade de gênero. O projeto está em fase inicial de análise.
Pensar o envelhecimento transsexual é pensar na continuidade da vida afetiva, sexual, política e social. Para Milton Crenitte, “envelhecer com dignidade requer políticas afirmativas, redistribuição de renda, acesso e acolhimento. Não é só viver mais. É viver bem, com saúde, afeto, comunidade e respeito”, explica o geriatra.
Apesar dos obstáculos, há reconhecimento de quem abriu caminhos. Marina lembra artistas e ativistas, como Jane Di Castro, Angela Leclery, Valéria Barcelos, Pabllo Vittar e Gloria Groove, que mantêm a visibilidade da comunidade e ajudam a construir memória. “Há um apagamento das nossas memórias. A gente precisa registrar quem veio antes e quem morreu sem reconhecimento”, afirma.
Por causa disso, ela sonha em produzir documentários e
biografias para preservar os relatos das gerações que sobreviveram,
especialmente de pessoas idosas trans, que raramente aparecem nas estatísticas
ou na mídia. Registrar essas histórias é também um ato de cuidado coletivo.
Fonte: Sul 21
Comentários
Postar um comentário