Aos 92 anos, Tiana Cardeal é homenageada como a travesti mais velha do Brasil

Considerada uma ancestral viva, a pessoa trans mais velha do país é protagonista do filme Meu Nome é Tiana

Tiana Cardeal estava sentada à janela de um avião quando recebeu um cartão de parabéns pelo primeiro voo. Aos 92 anos, nunca havia entrado em uma aeronave. Naquela manhã de novembro de 2025, deixava Governador Valadares, no leste de Minas Gerais, rumo a São Paulo — não para turismo nem visita familiar, mas para ocupar, pela primeira vez, espaços públicos de reconhecimento de sua própria história.

O deslocamento exigiu preparação. Antes da viagem, passou por consultas médicas, exames e avaliações de liberação médica. Nos dias seguintes, participaria do lançamento da segunda edição do projeto Narrativas Negras Não Contadas, no Museu Afro Brasil, e da sessão de estreia do curta Meu Nome É Tiana, dirigido por Dafny Bastet, apresentado no Festival Nicho Novembro.

Tiana é, hoje, a pessoa trans mais velha do país, reconhecida por entidades que representam essa população, como a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexuais (ABGLT) e a Red Latinoamericana y del Caribe de Personas Trans (RedLacTrans).

Com os dois pés na cidade, depois de conhecer centenas de pessoas e ser aplaudida diversas vezes, resumiu a experiência em poucas palavras: “Adorei vir para São Paulo”. Sem medo do avião, lembrou que o médico responsável por avaliar seu coração havia autorizado a viagem. Católica, um dos lugares que mais a impressionou foi a Catedral da Sé, no centro da capital. “Parece que a gente está no céu. Orei, pedi a Deus essa oportunidade que ele me deu, uma coisa que eu nem esperava viver”.

Até então, sua vida havia se desenrolado quase inteiramente em Governador Valadares. Há mais de cinco décadas morando no mesmo bairro da cidade mineira, construiu relações de vizinhança, além de uma rotina marcada pela fé católica e pelo convívio com pessoas próximas. Mulher trans, negra e aposentada, organiza os dias entre a paróquia Sant’Ana, no bairro de Altinópolis, e a convivência com integrantes da comunidade LGBTQIAPN+. “Não escondo nada de ninguém. A minha vida é o meu amor. Para que vou ficar com tudo isso? É assim que penso”.

Amigas e pessoas da igreja que frequenta não poupam elogios. “Sempre digo que ela é um patrimônio do bairro”, diz uma conhecida. “Ela está aqui desde o começo da paróquia. Sempre chega, fica no cantinho dela esperando a missa começar”, emenda outra paroquiana.

No dia 6 de agosto de 2020, em meio aos efeitos da pandemia de Covid-19, a produtora cultural e militante das causas LGBTQIAPN+ Bianka Gomes estava na casa de Tiana realizando uma transmissão ao vivo em suas redes sociais. De máscara, comentou sobre a importância de estar ali e de conhecer aquela história. Emocionada, disse que pretendia incluir a trajetória da moradora em um museu.

Foi Bianka quem fez o nome de Tiana chegar à Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra). Nos meses seguintes, as visitas continuaram e as transmissões se tornaram mais frequentes. Em março de 2022, a produtora morreu em decorrência de complicações cirúrgicas.

 Muito trabalho, poucas recompensas

Tiana resume a própria trajetória sem rodeios. Criada por fazendeiros, lembra da infância passada em ambiente rural, marcada por trabalho pesado desde muito cedo. “Fui criada com os fazendeiros e tudo”, conta. Na roça, descreve uma rotina dura, em que os animais eram abatidos para venda. “Lá na fazenda matava, era um lugar descampado”. Os restos faziam parte do cotidiano da casa. “Os ossos, a ossaria ficava tudo dentro de casa”.

O trabalho era contínuo, sem pausa. “Eram os sábados inteiros”. Ainda criança, se lembra de estar sempre ocupada, “picando alguma coisinha”, sem compreender os deslocamentos e decisões tomadas pelos adultos ao seu redor.

As relações familiares aparecem de forma fragmentada e atravessadas por violência. Tiana recorda que, ainda muito nova, chamava a mãe por diferentes nomes e vivia sob a autoridade de adultos que não conseguia nomear com clareza. “Com 15 anos, com 13 anos chamava a minha mãe da tia e da mãe bonita”. Embora diga que não era tratada com maldade o tempo todo, menciona agressões recorrentes. “Agora eu não sei porquê que ele me batia”. Ao falar desse período, resume sem adjetivos: “A minha vida foi uma vida muito sofrida”.

Pela idade, algumas memórias são não exatas, enquanto outras se dispersaram. Ainda assim, ela relata que, já adulta, se mudou para Brasília, onde seguiu uma existência marcada pelo trabalho exaustivo. “Morei lá. Lavava a roupa para as mulheres da vida”. A sobrevivência exigia esforço físico extremo e se dava em condições mínimas de infraestrutura. “Eu tirava água do buraco. A água do poço não era tijolado, né?”.

Mais tarde, trabalhou com uma família por quase um ano, acumulando funções domésticas e jornadas longas. A rotina começava antes do amanhecer. “Levantava 4 horas da manhã”. O transporte vinha cedo, sem margem de atraso ou descanso. “Quando era assim 8 horas, 9 horas, o carro passava na porta”. Eram poucas pessoas, muito trabalho e nenhum espaço para fraqueza. Ainda assim, Tiana sintetiza sua postura diante da vida em uma frase: “E, ao sair de casa, falava: não vou morrer, não. Não vou morrer, não”.

 O início do reconhecimento

“Meu olho brilhou”, é como a artista multimídia, diretora e roteirista Dafny Bastet resume o sentimento ao ver Tiana pela primeira vez em uma entrevista. Naquele momento, porém, a pandemia impôs distância. Com o enfraquecimento da crise sanitária e já envolvida com o coletivo de arte House of Bastet e com a cena ballroom — uma cultura LGBTQIAPN+ —, Dafny decidiu procurá-la pessoalmente. A motivação não era apenas artística, mas também uma preocupação concreta com as condições de vida de uma mulher trans idosa. “Bati na porta dela”, conta. “Oh, minha filha, entra aí para tomar um café”, foi a resposta.

Os primeiros encontros já nasceram atravessados pelo registro. Dafny diz que chegou “já com a câmera” e que Tiana ficou “super à vontade”, falando e relembrando histórias do passado. A intenção inicial era coletar material e dar continuidade ao que Bianka havia iniciado — o que ela chama de uma espécie de “historiografia trans” da cidade de Governador Valadares, a partir de um ponto de vista raramente preservado nos relatos oficiais.

Parte desse processo de visibilidade também passou pelo palco. Em 2024, Tiana participou de um TEDx em Governador Valadares ao lado da historiadora, produtora cultural e artista Dani Adestino Dias, travesti negra de 27 anos, integrante da House of Bastet e da cena ballroom em Minas Gerais.

As duas se conheceram durante a preparação do evento e dividiram o palco em uma conversa construída a partir da experiência de serem travestis negras de gerações distintas. “Eu busquei muito trazer a Tiana não pelo lugar da dor, mas por quem ela é, pela essência dela”, afirma Dani. “Ela é uma pessoa que vive muito no presente”.

Para Dani, o encontro foi marcado por uma conexão imediata, aprofundada nos bastidores e no convívio ao longo do processo. “Parecia que a gente já se conhecia há muito tempo”, lembra. Segundo ela, Tiana não se coloca como alguém à margem da própria história, mas como alguém que reconhece o próprio valor. “Existe uma plenitude nela, de alguém que reconhece o próprio valor”.

Antes de o documentário se concretizar, Dafny tentou viabilizar recursos locais. Inscreveu o projeto em editais, como o da Lei Paulo Gustavo, mas relata frustração com a rejeição da proposta na cidade, que descreve como “muito conservadora”. Apesar disso, seguiu os registros de Tiana e articulando redes de apoio. “Todo o reconhecimento dela vem da luta do movimento social. A mobilização coletiva permitiu a circulação da voz e da história de Tiana”.

Meses depois, com a abertura do edital Narrativas Negras Não Contadas, da Warner Bros. Discovery (WBD), a cineasta afirma que a história já estava “pronta”. “Havia uma base construída na convivência e no que se desenhava no cotidiano, como a relação de Tiana com a vizinhança, com a House of Bastet, com o catolicismo e o encontro geracional com jovens da comunidade LGBT”.

Parte dessa base também se materializa em um arquivo pouco comum: o acervo pessoal de Tiana. “São fotos de festas, aniversários, amigas trans, momentos de alegria. É muito gostoso acompanhar a transformação dela ao longo dos anos através dessas imagens. Isso é memória viva”, lembra Dani.

Lançado em novembro de 2025, o curta Meu Nome É Tiana, dirigido por Dafny e disponível no YouTube, acompanha o cotidiano da protagonista em cenas como encontros com amigas, idas à missa, momentos em casa com as vizinhas e uma homenagem recebida da comunidade LGBTQIAPN+ da cidade. Para a diretora, a experiência reafirmou um dos sentidos centrais do projeto: “Entender a história da cidade a partir de uma perspectiva única. O que a gente tem de registros, na sua grande maioria, é contado por homens brancos, normativos”.

 Ancestral viva

Na opinião de Keila Simpson, uma das principais lideranças históricas do movimento trans no Brasil e fundadora da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a trajetória de Tiana contribui para ampliar a compreensão sobre a presença histórica de pessoas trans no Brasil. A ativista indica que experiências como a de Tiana não se restringem ao relato individual. “A nossa vida não é só autobiográfica”. “Ela também promove outras possibilidades de contar histórias, de registrar outros mundos e outras perspectivas”. Na avaliação da ativista, a circulação pública dessa trajetória permite registrar vivências trans a partir do cotidiano, de relações comunitárias e de práticas culturais que, em geral, não aparecem nos registros oficiais.

Segundo a diretora Dafny Bastet, a visibilidade de Tiana não se deu por meio de políticas institucionais estruturadas. “Todo o reconhecimento dela vem da luta do movimento social”, afirma. Keila vai no mesmo caminho e aponta que, na ausência de ações sistemáticas de preservação da memória, trajetórias como a de Tiana correm o risco de se perder. “Seria mais uma travesti que viveu, morreu anônima e cuja história nunca seria recontada”, exemplifica. A ativista acredita que tornar essas histórias públicas amplia o repertório de referências sobre envelhecimento e sobrevivência trans, ainda pouco documentadas no país.

Para a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), a trajetória de Tiana não pode ser compreendida apenas como um caso individual de longevidade, mas como uma exceção estatística que revela um padrão estrutural de morte precoce. “O envelhecimento trans ainda é uma exceção, não um direito assegurado”, presidenta da entidade, Bruna Benevides

Bruna diferencia longevidade de dignidade. Envelhecer, diz, não significa necessariamente viver bem. Apesar de hoje contar com uma rede de afetos e reconhecimento simbólico, Tiana ainda enfrenta negações básicas de direitos — como a insegurança em torno da retificação do nome, a inexistência de políticas públicas de cuidado integral para pessoas trans idosas e o risco de violação da chamada dignidade póstuma. É nesse contexto que emerge uma das leituras centrais de sua trajetória: “A nossa maior vingança é envelhecer”.

 Memória trans

O descompasso entre reconhecimento simbólico e ação institucional também se manifesta no plano local. O conselheiro municipal da Promoção da Igualdade Racial de Governador Valadares, Andrew Amaral, avalia que o poder público chegou tarde à história de Tiana. Segundo ele, o conhecimento sobre sua trajetória ocorreu apenas em 2024, por meio de redes informais. “Enquanto o Estado demora a agir, é a mobilização social que garante visibilidade, cuidado e preservação da memória de pessoas trans”, pontua.

No campo da saúde, o problema é ainda mais profundo. De acordo com o médico geriatra Milton Crenitte, o envelhecimento da população trans precisa ser compreendido como um processo de curso de vida, e não como um desafio restrito à velhice. Coordenador do ambulatório de sexualidade do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas da FMUSP e voluntário da ONG EternamenteSOU, ele afirma que os referenciais usados hoje pela medicina são insuficientes. “Grande parte dos modelos que a gente tem para entender o envelhecimento populacional são baseados em estudos com pessoas cisgênero e heterossexuais”.

Segundo Crenitte, enfrentar esse apagamento exige articular ensino, assistência e pesquisa, além de revisar padrões tradicionais de gênero e sexualidade nos serviços de saúde. Ele defende que orientação sexual e identidade de gênero sejam tratadas como determinantes sociais de saúde, assim como raça, classe e território. “Garantir o direito à saúde é garantir o direito à vida”, resume.

Keila Simpson lê a trajetória de Tiana como parte de uma história coletiva de sobrevivências excepcionais. Para ela, a vida da mulher trans de 92 anos não é um caso isolado, mas uma experiência que atravessa diferentes momentos da história brasileira. “A história dela não é pontual, ela perpassa muitas vidas”, afirma, ao definir Tiana como uma “ancestral viva”, cuja presença irradia sentidos mesmo sem contato direto.

Ao relacionar essa leitura à própria experiência geracional, marcada pela ditadura militar, pela repressão e pelo silenciamento político, Keila amplia a dimensão dessa sobrevivência. Pensar em Tiana, que atravessou um período ainda mais hostil, torna essa trajetória ainda mais importante e atípica. “Em um país que historicamente apaga travestis, reconhecê-la ainda em vida expõe a fragilidade institucional na preservação dessas memórias e a urgência de transformá-las em patrimônio coletivo”, pontua. “A existência dela viva, lúcida e brasileira já é um prêmio para a nossa humanidade”.

Fonte: Brasil de Fato

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