Como Nasceu o Movimento de Travestis no Brasil

Histórico do Nascimento do Movimento

Político Social da População T no Brasil


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Com o objetivo de Documentar o marco histórico que é o surgimento jurídico do movimento de Travestis no Brasil e garantir a informação verídica e contextualizada de quem iniciou a Militância de Travestis em 1979, idealizou e fundou o Movimento de Travestis e a Associação de Travestis e Liberados – ASTRAL/RJ,  entidade idealizadora que idealizou a RENTRAL-RENATA-ANTRA redes Nacionais que Congregava Travestis de Todos os Estados Brasileiro desde 1992, também no sentido de facilitar a pesquisadores parceiros de outrora e atuais o Grupo Astral vem a público por meio deste publicizar, o seguinte: 


 

Jovanna Baby, Idealizadora e Fundadora do
Movimento Nacional de Travestis e do ENTLAIDS

Foi assim... Perseguida pela polícia capixaba na Grande Vitória, simplesmente pelo fato de ser travesti, em Fevereiro de 1979 fui detida na fila de um cinema (Cinema Santa Cecília, no Parque Moscoso, Parque Moscoso era uma área de concentração de prostitutas, área central de Vitória). Fui presa, segundo a polícia, para averiguações. À época tinha essas operações da polícia com alegação que era para averiguações. Porém, fiquei três dias presas, de sexta à segunda-feira, na Superintendência de Polícia Civil. Só fui solta após a chegada de uma advogada da Prefeitura que cuidava dessas causas sociais, não me lembro o nome. Ao sair do presídio e voltar para a Avenida da República no Parque Moscoso, encontro Bianca, uma mulher prostituta, portadora de deficiência convocando as prostitutas para uma reunião nas Escadarias Maria Ortiz no centro para tratarmos da perseguição policial que estava fora dos limites (nessa operação citada acima e intitulada “Pente Fino” todas as prostitutas da Avenida Beira Mar, Parque Moscoso e Vila Rubim foram detidas, levadas em ônibus para a delegacia da Vila Garrido em Vila Velha). A grande maioria foram liberadas no dia seguintes, dentre elas a Bianca. Eu, como fiz barulho, questionei e bagunçamos a delegacia, continuei detida. Dia 05 de Fevereiro, conforme a convocação da Bianca, comparecemos à Escadaria Maria Ortiz às 16h00 para escutá-la. Bianca começou a discussão sobre os ataques da polícia, todavia, ela não sabia como começaríamos esse movimento de prostitutas e travestis para amenizar os problemas sofridos por estes segmentos. 

Até que dentre as falas surge a ideia da criação de uma associação para defender os nossos interesses. Alguns nome para esse movimento foram pensados e discutidos (sindicato, coletivo, grupo, associação). Ao fim, optamos por uma associação a qual demos o nome de “Associação Damas da Noite”. A primeira Diretoria foi composta por Bianca, Presidente; Eu, Vice-Presidente; Kelly, Secretária; e as Conselheiras Paulete Closet, Kelly Silva e Magaly Anjos. Finalizamos a reunião desse dia e já agendamos uma data para procurar o serviço público e nos apresentar como Movimento Social Organizado. Procuramos a assessoria do Prefeito Wlamir Coelho, em especial a Secretaria Municipal de Assistência Social, bem como a assessoria do Governador Élcio Alves e posteriormente Eurico Resende, mais especialmente a Secretária de Estado de Justiça. Foi destinada uma servidora do serviço social da SEJUS para lidar com as nossas demandas. Inicialmente o Governo assumiu o compromisso de convocar a área de segurança do governo para tratar das questões detenções de prostitutas e travestis sem nenhuma justificativa plausível. Também se predispôs a oferecer assistência social para pessoas que quisessem deixar a prostituição, tais como cursos e encaminhamentos para o mercado de trabalho. E essas iniciativas foram implantadas, as investidas da polícia nos pontos de prostituição diminuíram consideravelmente e nós, enquanto prostitutas, assumimos o compromisso de colaborar com a manutenção da ordem das vias públicas e, assim, vivemos alguns anos sem a perseguição policial. Em Janeiro de 1983, eu Jovanna, me mudei para o Rio de Janeiro, cidade pela qual me encantava desde criança, que era um sonho a ser realizado de morar na cidade maravilhosa.

O primeiro mecanismo público de apoio às prostitutas e travestis 

O estado do Espírito Santo é pioneiro na criação do DEAM - Departamento de Apoio às Minorias da Secretaria de Estado da Justiça e Cidadania - SEJUC, instituído na gestão do então governador Albuíno Cunha de Azeredo, o primeiro governador assumidamente negro de um estado brasileiro e a primeira Coordenadora desse órgão foi Arnúbia Pezende a qual participou do primeiro Encontro Nacional de Travestis, organizou o segundo na capital Vitória e participou de outras versões do evento.

Assim que cheguei no Rio em 1983, o qual foi eu e a Paulete Closet, fomos morar em uma casa onde moravam várias travestis na Lapa. Logo depois nos mudamos para o bairro Saúde, fomos morar em uma hospedaria onde alugavam quartos individuais.

Em meados dos anos de 1990, eu trabalhava na prostituição nos Bairros Praça Tiradentes, Praça Mauá e Central do Brasil, no Rio de Janeiro. A atuação da Polícia era veemente na perseguição, espancamento e prisão de Travestis em toda a Capital, a polícia usava sempre nas operações ônibus e caminhões para superlota-os de travestis uma levarem para a delegacia. Uma certa tarde estava eu na Praça Cristiano Otoni e apareceu por lá  uma senhora de nome Célia Sterenfild  acompanhada de Gabriela Silva Leite e me convidou para participar de uma reunião no Instituto Superior de Estudos da Religião e a mesma realizava atividades de prevenção as então chamada na época DST e AIDS, a mesma era coordenadora de um Projeto financiado pelo então Departamento Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde e dentre as atividades estava a garantia de direitos das profissionais do sexo, inclusive o primeiro nome do projeto era "Saúde na Prostituição", comecei a participar das reuniões a partir desse convite e ao poucos, a Dra. conseguiu ganhar minha confiança e já em 1991 passei a compor a equipe de multiplicadores de informações do projeto percebendo uma ajuda de custo de um salário mínimo mensal, desafio aceito e fui atuar como multiplicadora de informações em todos os pontos de prostituição de Travestis Lapa, Gloria, Centro, Copacabana, Ipanema, Jardim América dentre outros. De imediato, identifiquei algumas travestis com a qual percebi que elas tinham mais interesse pelo diálogo e me perguntavam muitas coisas que foram Elza Lobão, Beatriz Senegal, Josy Silva, Monique Du Bavieur e Claudia Pierre France. Estas, a partir da identificação, participavam regularmente de todas as reuniões marcadas na sede do projeto e já no final de 1991 explanei para elas a ideia de criarmos uma grupo para lutar pelos nossos direitos, o qual foi aceito e ficamos no amadurecimento da ideia, porém, a gota d'água para que efetivassemos de vez a instituição foi uma ação arbitrária da Prefeitura do Rio através do Prefeito Marcello Alencar que determinou que a guarda municipal detesse todas as travestis que fossem encontradas à noite do Aeroporto Santos Dumont até Ipanema. Quando a imprensa anunciou tal operação, as travestis dessas regiões ficaram em polvorosa e como já viam em mim uma liderança me pediram que providências fossem tomadas. De imediato eu marquei uma reunião na sede do projeto, a qual 70 delas apareceram. O Advogado do ISER participou e nos garantiu que ia contatar um amigo dele no alto escalão da Polícia Militar para o ver o que podíamos fazer para barrar tal ação da Prefeitura e assim ele fez e nos orientou e seguimos fielmente sua orientação. Chegando a Guarda do Município do dia da ação de recolhimento estava eu e as meninas supracitadas todas na Avenida Augusto Severo por onde a polícia iniciaria e assim que a guarda chegou com vários ônibus e estacionaram em frente ao passeio público no início da Avenida Augusto Severo, ligamos de um orelhão para o número combinado com o Advogado e pedimos a proteção policial, visto que Guarda Municipal não tem poder de polícia e estavam no excercício ilegal da profissão. Dez a quinze minutos depois chega a Polícia Militar também com ônibus, a essa altura também já tinham algumas travestis detidas dentro do ônibus. O oficial dia da PM deu voz de prisão ao chefe da guarnição municipal e a todos os outros componentes e estes foram levados a delegacia, segundo a polícia, para responder conforme o ato praticado.

Ainda que a polícia nos socorreu nesse ato descabido da Prefeitura do Rio, a perseguição da polícia não cessava e na medida que o tempo passava, eu na equipe do projeto, mais conhecimentos adquiria, e assim consegui iniciar o processo de continuar as reuniões com as Travestis na sede do Instituto Superior de Estudos das Religiões-ISER,  Entidade muito respeitada no Rio de Janeiro que abrigava no seu bojo de projetos o projeto “Saúde na Prostituição”. Estas reuniões se iniciaram em setembro de 1991, com a presença de no máximo 06 Travestis, a maioria absoluta não iam porque trabalhavam à noite até o amanhecer e dormiam durante todo o dia.

Da esquerda para a direita: Elza Lobão, Claudio, Jovanna Baby (primeiro plano), Beatriz Senegal (segundo plano) e Monique Du Bavieur. Fundadoras do Movimento Nacional de Travestis e do ENTLAIDS



Fizemos cerca de duas reuniões no final de 1991, a temática era sempre prevenção da Aids e a violência policial e assim o tempo passava e cada vez mais aumentava os ataques da polícia. Na época, o interesse das seis (06) Travestis que já participavam maciçamente das atividades do Projeto, compareciam a todas as reuniões, são Eu , Elza Lobão, Josy Silva, Beatriz Senegal, Monique do Bavieur e Claudia Pierry France.  A atuação da guarda municipal foi um tiro no pé da Prefeitura e a noticia se espalhou pela mídia, visto que mesmo tendo sido abortada pela Polícia Militar, a tal operação diária nas áreas de prostituição continuaria, e assim criou-se um alvoroço em todos os pontos compreendidos na determinação do prefeito, e assim preocupadas com os desdobramentos da iniciativa da prefeitura, caímos em campo convocando todas as Travestis para participar das reuniões semanalmente, sempre às quartas-feiras na sede do ISER. Na reunião do dia 21 de Janeiro de 1992 as 14 horas, por incrível que pareça nesse dia 89 travestis compareceram, estávamos preocupadas porque chamamos a impressa e estávamos com medo delas não vir, porem elas vieram e foi notícia em todos os jornais, e com a repercussão da nossa reunião, então no dia seguinte 22 de Janeiro as 8:40 da manhã Jovanna Baby recebe um telefonema de uma alta patente da policia que discordava da ação, que a orientou a fazer denuncia de abuso de poder, e prática ilegal visto que a guarda da prefeitura a época não tinha poder de policiamento e a partir daí passou contato de  a quem ligar e como se dirigir a pessoa que também era uma mulher Negra Policial Militar que daí pra frente seria o nosso contato no Quartel General da Polícia Militar.

Com tudo que vinha ocorrendo contra as travestis, tanto na área central como nos bairros do Rio, o grupo das seis listadas acima ponderou e decidimos que tínhamos que nos organizar socialmente, tendo em vista que a própria oficial dia da PM nos aconselhou a se organizar, pois segundo ela as coisa tendia a melhorar com auto organização, assim sendo, marcamos uma reunião no dia 15 de fevereiro para discutir a criação da Associação e como já existia a associação das Prostitutas da Vila Mimosa, convidamos Dorath Prado uma das diretoras para nos explicar o passo a passo, nesse dia Também Escutamos o Dr. Rubens Martins presidente do ISER que nos explicou sobre Estatuto, Ata e os passos para judicializar, ao fim da Reunião eu fiquei na incumbência de Providenciar Estatuto e Ata, e agendamos uma próxima reunião para dia 15 de março, para leitura, aprovação e efetivação de diretoria bem como lavramento da ata e assim foi feito, nessa reunião Discutimos o nome pelo qual ia dar à nossa instituição. Vários nomes foram colocados em discussão, mas o que eu apresentei foi vencedor. A sigla ASTRAL veio após a aprovação do nome  Associação de Travestis e Liberados, o Liberados se deu pelo fato de que à época muitas travestis eram homens de dia e a noite se montavam para se prostituir, porém durante do dia não assumiam a sua identidade feminina e nós enquanto líderes não queríamos deixa-las de fora. E também para contemplar  Transformistas e gays e lésbicas que se interessassem em se unir ao grupo. Aprovado o nome, passamos a discutir nomes que compunham a primeira Diretoria. Apresentei meu nome e fui eleita Presidente em seguida as outras componentes foram se colocando à disposição para os cargos subsequentes e concomitantemente aprovados e os cargos ficaram na seguinte órdem: Presidente, Secretário, Tesoureiro e Conselho Fiscal. Como não tínhamos noção de como elaborar Estatuto pedi ajuda ao Advogado do ISER, o qual esboçou um Estatuto e Ata, eu apresentei ao grupo em reunião no dia 02 de maio que também foi aprovado,  demos  entrada em cartório de pessoa jurídica no dia 15 de maio as 14:30hs da tarde com toda mídia convocada televisiva, escrita e falada, foi um marco histórico para o Rio de Janeiro e para o Brasil. No dia 29 de maio recebemos o Estatuto e Ata já registrados e partimos para a Receita Federal para nos inscrever no antigo CGC, hoje CNPJ e assim no ano de 1992 nasce a primeira associação de travestis do Brasil e da América Latina na cidade do Rio de Janeiro/RJ, e assim foi a percussora do Movimento Social Organizado de Travestis, graças à insatisfação dessas sete (07) pessoas que além de quererem banir a violência e a perseguição social não se viam contempladas nas discussões de gênero do MHB (Movimento Homossexual Brasileiro). 


 Em janeiro de 1993 a ASTRAL organizou o 1º Seminário sobre prostituição e direitos civis na sede do ISER na Ladeira da Glória com a participação de autoridades da área de saúde e de direitos civis do Rio de Janeiro, 45 pessoas participaram, e nesse seminário tiramos indicativo para realizar no mês de junho do mesmo ano o 1º Encontro Estadual de Travestis do Rio de Janeiro. E essa notícia se espalhou, de imediato lideranças sociais de alguns outros estados se interessou em participar e assim sucedeu, tivemos a participação do estado do Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Espírito Santo. E durante a realização desse encontro apresentei a proposta de transformá-lo no 1º Encontro Nacional de Travestis e Transexuais, aprovado por unanimidade e o então seminário pasou a ser I Encontro Nacional de Travestis e Liberados. A partir daí a representante do estado do Espírito Santo que era uma senhora da Secretaria de Estado de Justiça e Cidadania propôs então que o 2º Encontro Nacional de Travestis e Liberados acontecesse na capital capixaba, Vitória. As discussões foram amplas até decidirmos que o encontro estadual se tornasse nacional, porém as diretoras fizeram uma reunião rápida durante o seminário, consensuou a necessidade de atuar e organizar ativamente outras lideranças no panorama nacional e como não tinham recursos suficientes e nem meios mais diretos e efetivos para acessar as Travestis de todo o Brasil, pensamos então em fazer essa interlocução e estabelecer um encontro nacional, e a partir deste que se tornou o I Encontro Nacional de Travestis e Liberados e assim em 1994 foi realizado em Vitória o II Encontro Nacional com organização da ASTRAL com a articulação do Governo do Estado, através da Secretaria de Justiça e Cidadania SEJUC, inclusive com o apoio da Polícia Militar do ES e da Chocolates Garotos. Foi um marco histórico para o Brasil e para o estado do Espírito Santo.

Fundação da RENTRAL/RENATA/ANTRA

 

Durante o 3º Encontro Nacional de Travestis no Hotel Guanabara na Candelária no Centro do Rio com a participação de 250 travestis de todo o Brasil, por unanimidade decidiram criar a RENTRAL – Rede Nacional de Travestis e Liberados, posteriormente RENATA – Rede Nacional de Travestis e, logo depois, ANTRA – Articulação Nacional de Travestis. 1995, 1996, 1998 respectivamente, o objetivo da criação seria promover uma articulação e diálogo rápido com lideranças de todo o Brasil, articular a aproximação com o poder público, trabalhar a problemática da empregabilidade e a garantia da segurança física nos pontos de prostituição de travestis e transexuais do Brasil. Jovanna Baby coordenou a RENTRAL/RENATA e presidiu a ANTRA de 1998 a 2000 e, posteriormente, voltou a presidir a ANTRA de 2012 a 2016.





A chegada de grandes lideranças importantes do Movimento
A partir do ano de 1995 se deu a chegada de travestis que se tornaram grandes ativistas da causa Trans. Com a parceria com o Programa Nacional de Aids nos possibilitou essa articulação. Nesse ano chega para se somar Indianara Cerqueira, Bianca Magno, Bárbara Graner, Astrid, Isabelita Kenedy, Vanessa Siebra, Porcina D'alejandro, Valquíria La Roche, Diana Valente, Sui Fashion, Alessandra de Porto Alegre, Adriana Tulipa, Midori, dentre outras que se adentraram ao Movimento Nacional a partir do III ENTLAIDS. Em 1996 o Movimento ganha mais importantes nomes para a luta nacional através do IV ENTLAIDS, dentre elas Keila Simpson, Kátia Tapety, Luciana de Recife, Janaína Dutra e sucessivamente o Movimento continuou a ganhar grandes nomes de peso o qual solidificou sua base nacional e expandiu sua força e foi assim em 1997, São Paulo, 1998 Rio de Janeiro, 1999 Ceará e no ano 2000 no VIII ENTLAIDS em Cabo Frio onde ganhamos com muito orgulho as nossas companheiras de luta Cris Steffany que deu consistência ao Movimento Nacional em Mato Grosso do Sul e no Brasil, e Sônia Golubcik, Veluma Brown e Tatiane Araújo.

Em 1995 o Encontro volta a ser no Rio de Janeiro desta vez com o apoio integral do Programa Nacional de DST e Aids, esse apoio veio a partir do interesse da então Coordenadora Nacional de IST/Aids, Drª Lair Guerra que ao tomar notícia pela mídia da organização social das travestis e dos encontros nacionais, colocou o programa nacional à disposição como parceiro para realização dos próximos e outras atividades alusivas à prevenção das DST/Aids e Direitos Humanos e condicionou esse apoio a inserirmos a palavra "Aids" no nome do evento e a partir daí o Encontro Nacional de Travestis e Liberados passou a ser Encontro Nacional de Travestis e Liberados que Atuam na Prevenção da Aids. O Departamento no pediu que enviasse contato de três hotéis o qual tínhamos interesse em realizar o evento e assim fizemos e o Departamento licitou hotel, alimentação e passagens de todos os Estados Brasileiros. À época a ASTRAL  tinha como parceiro  em forma apoio as empresas de renome, TAM, Varig, Vasp, Rio Sul Itapemirim, Taba, Penha, São Geraldo e Cometa as quais disponibilizaram passagens aos participantes de outros estados para o 3º Encontro. O III ENTLAIDS aconteceu no Hotel Guanabara Palace tradicional e Luxuoso na época e passou a ser III Encontro Nacional de Travestis e Liberados que Atuam na Prevenção da Aids. Para que pudéssemos alcançar travestis de todos os estados brasileiros tivemos que ficar praticamente noventa dias contatando estados e municípios que tinham programas de Aids e ONGs a fim de que nos ajudassem a conseguir contato com uma travesti. Alguns estados por não ter contato com travestis indicou pessoas gays. Recordo aqui a dificuldade que foi, por exemplo, o estado do Pará para podermos identificar "Diana Valente", uma transexual de Santarém muito qualificada e competente e que faz parte desse heroísmo. Enfim conseguimos articular todo o Brasil e o III ENTLAIDS contou com a participação quase 100% dos estados brasileiros, com exceção de Roraima, Mato Grosso do Sul. E assim, em junho 1993, no Hotel Guanabara Palace se deu o III ENTLAIDS com a participação de 250 pessoas, durante o III ENTLAIDS foi aprovado o rodízio do encontro que passaria a ser um ano no Rio e outro ano fora do Rio e de imediato Curitiba se candidatou através de Layza Minelly que participava pela primeira vez a sediar o 4º encontro e foi aprovado por aclamação, também foi acordado que os ENTLADS aconteceriam sempre no mês de junho, entra 1996 e chega o mês de maço e Curitiba devolve a organização do IV ENTLAIDS ao ASTRAL por não ter conseguido articular o apoio estadual, regional e nacional. A ASTRAL recebe e consegue dentro de três meses articular com o Departamento Nacional de IST/Aids, com a Coordenação Estadual do Rio de Janeiro e o Programa Municipal do Rio de Janeiro e realiza o mesmo de 25 a 28 de junho,  nas dependências do Hotel Rio's Presidente no Centro do Rio, o V Encontro aconteceu em São Paulo realizado pelo Grupo Philadélfia, Casa Brenda Lee e Programa Estadual e Municipal de DST/Aids no ano de 1997. Em 1998 o VI ENTLAIDS volta ao Rio, novamente organizado pelo Grupo ASTRAL em parceria com o Governo Federeal, Estadual e Municipal e aconteceu nas dependências do Hotel São Francisco no centro do Rio.  





Em 1999 VII ENTLAIDS se deu em Fortaleza/CE nas dependências da antiga rede de hotéis Barramares organizado pelo GRAB - Grupo de Resistência Asa Branca, com o apoio dos programas Nacional, Estadual e Municipal de DST/Aids e em 2000 volta ao Rio o VIII ENTLAIDS  realizado na Cidade de Cabo Frio com 250 participantes de todos os estados do Brasil com o apoio da Coordenação Nacional de DST/Aids do Ministério da Saúde, Coordenação Estadual de DST/Aids/RJ, Coordenação Municipal de DST/Aids do Rio de Janeiro, UNDCP, Ministério da Previdência Social, Ministério da Justiça, Laboratório GlaxoWellcome e Vereadora Jurema Batista do PT do Rio de Janeiro.
A partir desse encontro de Cabo Frio que rendeu capítulos negativos para algumas lideranças nacionais o que resultou no meu afastamento do Movimento Nacional por um período de cinco anos, motivos o qual merecerão um capítulo à parte desse documento, que será descrito abaixo, conforme processo de elaboração do mesmo.


Minha saída do movimento, decepcionada e magoada com algumas lideranças que tentaram macular a imagem do ENTLAIDS Cabo Frio, ano 2000

O ENTLAIDS realizado no Hotel Joalpa em Cabo Frio em junho do ano 2000, alguns fatos intrigantes e desnecessários foram promovidos por algumas pessoas que se diziam lideranças e que, inclusive, hoje são endeusadas pelo próprio Movimento Trans. É duro, mas eu costumo afirmar que o Movimento prima por endeusar demônios que macularam e maculam sua imagem. Em Cabo Frio, uma certa liderança vinda de um estado brasileiro defendia veementemente os ataques que o Professor Luiz Mott fazia às travestis, inclusive nos chamando de "homem de peito" e "rapazes de saia", além de , em seus textos, afirmar que eramos pobres e que morávamos em casas que pareciam verdadeiras latrinas, além de nos inferiorizar em seus textos, muitos deles utilizados pelo Governo Federal em seus materiais, como por exemplo, o Manual do Multiplicador Homossexual. Então apresentamos em Cabo Frio a proposta que considerava e considera até o Professor Luiz Mott Persona non Grata pelas travestis brasileiras. E essa liderança travesti de um estado brasileiro alienada e submissa aos projetos promoveu quase que uma guerra na Plenária Final do ENTLAIDS Cabo Frio a fim de vetar a aprovação da proposta, mas para desgosto dela, a proposta foi aprovada com larga vantagem. Uma outra liderança, também travesti, inclusive estudada, quase que inviabilizou o ENTLAIDS de Cabo Frio por tentar passar calote no Tráfico de Drogas de uma favela em frente ao hotel e mandar os traficantes irem receber com a organização do evento. Foi um Deus nos acuda, eles cercaram o hotel e disseram que ninguém saía ou entrava no hotel se a dívida deles não fosse sanada, foi um horror. Os participantes em polvorosa, trancados em seus apartamentos, temendo o pior, eu e mais um grupo de pessoas nos juntamos, fizemos uma vaquinha rápida e quitamos a dívida para que o evento transcorresse em paz. O curioso é que tudo isso foi na primeira noite após a abertura do evento. Para sairmos após esse fato, contatamos a Polícia Militar que colocou uma viatura de prontidão na frente do hotel para garantir a saída e entrada dos participantes, bem como o direito de ir e vir. São coisas lamentáveis, mas que merecem ser contadas. Fiquei afastada do Movimento de 2000 a 2005, mas sempre contatada por Keila Simpson para que eu voltasse. Inclusive, na minha volta foi no ENTLAIDS de Florianópolis depois de muita insistência dela.

A Transfobia já era avassaladora nos anos 1990

Polícia Civil
No ano de 119, oito travestis foram assassinadas em uma semana, logo após o carnaval do Rio e na Baixada Fluminense. E na nossa primeira investida de protestos contra a polícia civil do Rio de Janeiro se deu em frente a Secretaria de Polícia Civil na Rua da Relação no centro da cidade em março de 1996. Convidamos o Grupo Atobá, o Coletivo de Lésbicas do Rio de Janeiro - COLERJ, Associação de Prostitutas da Vila Mimosa, a imprensa e fomos ao protesto. Estávamos todos na calçada com faixas estendidas e palavras de ordem quando houve um chamado do então secretário Mário Covas que adentrássemos que ele iria nos receber, e assim fez. Nos recebeu, mas quis me agredir fisicamente quando esbocei os nossos descontentamentos, nesse momento ele havia pedido para que a imprensa não entrasse e ficasse na sala ao lado. Porém a Folha de São Paulo percebeu que o clima estava acirrado e entrou no momento quem que ele espalmava a mão para bater no meu rosto quando eu afirmei que a polícia civil também passava na Avenida Brasil e na Dutra, tomava as bolsas das travestis e lhes roubavam todo o dinheiro que elas ganhavam durante a noite. O Secretário não se conteve nesse momento e quis me agredir, só não consumou o fato porque a imprensa entrou de imediato e quase flagrava ele com a mão erguida. Nesse momento ele se conteve e deu a reunião por encerrada.

Tenente Isabel - Polícia Militar
Nesse mesmo ano também enfrentamos a fúria e a transfobia da Tenente Isabel do 13º Batalhão da Polícia Militar da Praça Tiradente/RJ. A mesma perseguia diuturnamente travestis da Lapa, da Praça Tiradentes e da Glória. Cortava cabelo, quebrava os perfumes e cortava o salto do sapato com facão. Ela agia como se não houvesse lei que protegesse a nossa população, porém um dia decidimos ir a luta contra o tão temido 13º Batalhão, famoso pelas suas barbaridades, abusos de autoridade e violência. Fomos para a calçada do Comando Geral da PM com toda imprensa e levamos todos os participantes do VI ENTLAIDS, cerca de umas 200 pessoas. Fechamos a Rua Evaristo da Veiga, estendemos as bandeiras LGBT no chão e deitamos protestando contra a violência da tal Tenente. Em seguida fomos recebidas pelo Comando Geral da Polícia Militar que nos prometeu tomar providências e daí retornamos para o Hotel para dar continuidade as atividades do encontro. Alguns dias depois o setor de comunicação da Polícia Militar nos contatou para informar que a Tenente havia sido transferida para uma quartel da Polícia Militar no interior do estado. Percebeu-se nas áreas citadas acima que os atos nas áreas provocados por ela cessaram e não se repetiram mais.


Entrada do “T”


  
Inicialmente, o termo mais comum era GLS, sendo a representação apenas para: Gays, Lésbicas e Simpatizantes. Com o crescimento do movimento contra a homofobia e pela livre expressão sexual. Em 1995, na cidade de Curitiba, participando do EBGL, Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, eu e a companheira Layza Minelly peitamos o quartel GGG e apresentamos proposta para que o “T” compusesse a sigla do evento e passasse a se chamar EBGLT. Sofremos uma resistência muito grande, inclusive de alguns e algumas decanas do então Movimento EBGL, mas graças à solidariedade de gays e lésbicas nordestinas que se uniram a nós pela representatividade trans conseguimos aprovar e o “T” entrou de vez na sigla do encontro citado.

            Nome Social


Banner de Divulgação do VIII ENTLAIDS, Hotel Joalpa, Cabo Frio/RJ


            Por mais que muitas e muitos queiram credenciar a elas as conquistas relacionadas ao Nome Social, infelizmente elas não podem, até porque o Nome Social já era discutido desde 1992 pelo movimento então criado, inclusive com várias reuniões realizadas e palestras nos nossos encontros dos Deputados Fernando Gabeira, Heloneida Studart e Jurema Batista, Deputados federal, estadual e vereadora, inclusive Fernando Gabeira nos propôs e apresentou projeto de Lei na Câmara dos Deputados propondo que a Carteira de Identidade tivesse um campo para o “codinome”. Vale salientar que à época não discutíamos Identidade, inclusive muitas travestis se apresentavam enquanto homens que gostavam de viver como mulheres. 

Me recordo, Adriana Tulipa, no ENTLAIDS do Hotel Guanabara em uma palestra do Dr. Sérgio Levi, Cirurgião Plástico renomado do Rio de Janeiro, que foi o primeiro Cirurgião Plástico brasileiro que se predispôs a proferir palestra para travestis de todo o Brasil reunidas no evento. Quando Dr. Sérgio nos incentivou a lutar para ocupar um espaço feminino diante da sociedade, ela Adriana sacou-se do seu bustiê um peito de espuma e colocou nas mãos do Doutor afirmando que ela não era mulher, era um homem que vivia como mulher e que não podia se apresentar como mulher. Ainda afirmou que “mulher é uma perfeição de Deus e que ela as imitava da melhor maneira possível”. Não me esqueço nunca disso. Ainda assim o Dr. Sérgio continuou insistindo com relação na sua orientação, falou também dos males do silicone injetável, apresentou as novidades à época das próteses mamárias, glúteos, contornos faciais e rinoplastia. 99% das travestis presentes nessa palestra saíram encantadas e avaliaram com nota 10 a palestra.



Diálogo de Bonecas



Capa e Expediente do Dicionário Diário de Bonecas


            O “Diálogo de Bonecas” é o primeiro Dicionário impresso do Bajubá das Travestis no Brasil. No final do ano de 1992 em uma das reuniões da ATRAL na sede do Instituto ISER, as travestis decidiram lançar um dicionário com o bajubá diário a fim de ajudar as meninas que viviam da prostituição noturna a se defender dos ataques, seja da sociedade ou da polícia à época. Me lembro que a principal fala era que uma podia avisar a outra em situações de emergência sem serem entendidas por curiosos. Muitas palavras usadas foram levantadas e otimizadas em um texto que foi diagramado e impresso em forma de dicionário.

Em 29 de janeiro de 2004, militantes ativistas do movimento nacional organizado das Travestis participaram, no Congresso Nacional, do lançamento da primeira campanha contra a transfobia no país. A partir de então, o dia 29 de Janeiro passou a ser o Dia da Visibilidade das Travestis, cujo objetivo é ressaltar a importância da diversidade e respeito para o movimento organizado desse segmento social e politicamente organizado no Brasil.

O Movimento Social Organizado das Transexuais começou a aparecer em meados dos anos 1997, quando o CFM – Conselho Federal de Medicina, regulamentou a realização de cirurgias experimentais de Transgenitalização (Readequação de Sexo) em hospitais universitários no Brasil. Porém, foi 2005, em Brasília/DF, que nasceu o CNT – Coletivo Nacional de Transexuais, durante o EBGLT – Encontro Brasileiro de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que as Transexuais se reuniram e decidiram chamarem-se como Mulheres e Homens Transexuais, em oposição aos critérios médicos patologizantes que se referiam a uma Mulher Transexual com transexual masculino, fazendo apenas  referência ao sexo de nascimento.

A sigla GLBT perdurou por pouco tempo, e essa alteração do termo em favor de LGBT, aprovada na 1ª Conferência Nacional realizada em Brasília/DF no período de 05 a 08 de junho de 2008. Instituto Grupo Organizado de Articulação para Inclusão Social e Cidadania de Transexuais e Travestis

IV Encontro Nacional de Travestis e Transexuais que Atuam na Prevenção da Aids. Hotel Rio's Presidente/RJ



OUTRAS IMAGENS





Crachá do VIII ENTLAIDS


Show de Abertura do III ENTLAIDS na Boate Cambalacho, Lapa/RJ


1ª Parada da Diversidade de Fortaleza/CE


Matéria sobre o III ENTLAIDS  na Folha de São Paulo




Comentários

  1. A foto onde está eu Jovana ,Kátia Tapety e André na realidade é do IV encontro que era o segundo que eu participava desde 1995 ( o V foi em São Paulo organizado por Grupo Filadélfia e Casa de Apoio Brenda Lee).

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  2. Respirei fundo, a pós leitura desse material rico em ações de luta e resistência. gostaria que todes lessem esse documento, que tenho certeza depois desse feito num momento que nos encontramos com Travetis mais velha ,logo estenderia a mao para pedir a benção. obrigada a todes travestis que contribuíram em nosso campo do direito, as vezes usando como maquina de guerra o corpo.

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  3. Olá Jovanna, parabéns pela história de luta! Estou escrevendo um artigo científico e gostaria de citar em partes essa obra.

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  4. Olá, eu sou travesti que usa das minhas redes sociais para divulgação de informação para nossa comunidade, e gostaria de ler esse artigo durante uma live, e até citá-lo em um vídeo que irei postar no meu canal do YouTube, podemos até conversar melhor sobre isso, estou disposta e aberta a elaborar um melhor entendimento histórico e poder citá-lo e ressaltá-lo como forma de informação e empoderamento. Posso até te enviar o vídeo antes de publicar. Bom, aguardo respostas. Obrigada desde já.

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  5. Eita! Quantas lembranças de histórico rico em histórias. Parabéns ao movimento por ter construído seu próprio espaço e suas próprias conquistas!

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