As Raízes Históricas do Pajubá ou Bajubá: Encruzilhada Dialética das Mulheres Transexuais e Travestis que já foi usado como Linguajar Codificado e Instrumento de Resistência
Por Fernanda de
Moraes da Silva¹
Introdução
Pajubá ou Bajubá um dialeto ou criptoleto 2 da linguagem
popular constituída da inserção na língua portuguesa de numerosas palavras e
expressões provenientes de línguas africanas ocidentais. Também muito usado
pelo chamado povo do santo, ou seja, praticantes dos vários segmentos das
Religiões de Matriz Africana e AfroBrasileiras, tais como a Umbanda e
Candomblé, e também pela população das mulheres transexuais e travestis
brasileiras. Ademais é um socioleto3 baseado em várias línguas africanas,
afro-brasileiras e afroreligiosas usadas inicialmente em Terreiros de Aṣé e
Casas de Candomblé. Criado originalmente de forma espontânea em regiões de mais
forte presença africana no Brasil, como terreiros e casas de candomblé (Awọn
Ilè). Outrossim, é o dialeto resultante da assimilação de africanismos de uso
corrente, que por fim resultam na incompreensível linguajar para quem não
aprendesse, ou não aprende, previamente seus significados, então esse
“linguajar popular” a ser usado também como código entre a população das
mulheres transexuais e travestis brasileiras e posteriormente adotado por todas
as comunidades LGBTI e simpatizantes. Esse linguajar passou a ser utilizado
pelas mulheres transexuais e travestis brasileiras, que se prostituiam, durante
o período da ditadura militar como meio de enfrentar a repressão policial e
despistar a presença de pessoas indesejadas. Tanto nos terreiros de umbanda e
casas de candomblé, assim como entre as mulheres transexuais e travestis
brasileiras, a palavra pajubá ou bajubá tem o significado de
"fofoca", "novidade", "notícia", referente a
outras Casas de Aṣé ou fatos ocorridos, tanto de coisas boas, como de coisas
ruins, nesses círculos.
Muitas vezes também dito como “falar na língua do santo” ou
“enrolar a língua” muito usado pelo povo do santo quando se quer dizer alguma
coisa para que outras pessoas não entendam. Criado durante o contexto de
ditadura militar, provavelmente entre as décadas de 1960 e 1970, o pajubá
ganhou seu primeiro documento oficial em 1995. O livro ganhou o nome de
“Diálogo de Bonecas”, e foi organizado por Jovanna Cardoso da Silva, “Jovanna
Baby”, presidenta da extinta ASTRAL (Associação de Travestis e Liberados), do
Rio de Janeiro e, atual presidentra do FONATRANS – Fórum Nacional de Travestis
e Transexuais Negras e Negros. Entre as mais de 800 palavras listadas está o
vocábulo “boneca”, uma das palavras que definem as mulheres transexuais e
travestis brasileiras.
Pajubá ou Bajubá: dos
Terreiros para as Ruas
O Pajubá ou Bajubá teve sua origem durante o período da
ditadura militar (1964-1985) no Brasil, que durou 21 anos, foi um regime
autoritário que se iniciou com o golpe militar em 31 de março de 1964, com a
deposição do presidente João Goulart. Esse regime militar estabeleceu a censura
à imprensa, restrição aos direitos políticos e perseguição policial as pessoas
opositoras ao regime. E com derivação nos dialetos iorubá e nagô, esse
vocabulário reúne apropriações linguísticas feitas pela população das mulheres
transexuais e travestis brasileiras, o qual era, e ainda é, essencial para
resolver o estranhamento causado pela combinação entrecruzada e pouco usual de
palavras e verbetes do dicionário nacional. Afinal, a mescla de português
informal com uma fala próxima a línguas africanas pode soar incompreensível à
primeira vista – principalmente se você não tem a mais remota ideia do que se
trata o Pajubá ou Bajubá. Conhecido como uma dialética universal das mulheres
transexuais e travestis brasileiras, o Pajubá ou Bajubá é muito mais que um
punhado de gírias divertidas, como “lacre”, “bafo” ou “uó”. Cada vez mais esse
linguajar é incorporado ao vocabulário de muitas pessoas, especialmente ao da
juventude, mas possui raízes históricas e, o mais importante, de resistência e
resiliência. O Pajubá ou Bajubá surge da, e na, fusão de termos da língua
portuguesa com termos extraídos dos grupos étnico-linguísticos nagô e iorubá —
que chegaram ao Brasil com os povos africanos traficados e que foram duramente
escravizados, originários da África Ocidental — e reproduzidos nas práticas dos
diversos segmentos das religiões de matriz africana e afro-brasileiras. Os
terreiros de umbanda e casas de candomblé sempre foram espaços de acolhimento
para as minorias, incluindo a parcela da população das mulheres transexuais e
travestis brasileiras, que passou a adaptar os termos africanos em outros
contextos.
História do Linguajar
Em 31 de Março de 1964, o país entrava num período marcado
pelo cerceamento dos direitos sociais, civis e políticos daquelas pessoas que
lutaram e resistem, até os dias de hoje, contra a opressão do autoritarismo e
da tirania política. A Ditadura Militar, ao longo de seus 21 anos de duração,
perseguiu, torturou e assassinou aproximadamente 20 mil pessoas, segundo dados
da organização internacional Registro de Direitos Humanos (Human Rights Watch),
incluindo integrantes da população das mulheres transexuais e travestis
brasileiras e demais pessoas LGBTI, que se tornaram alvos específicos por meio
de operações focadas nesse grupo. Durante este período, a censura foi uma
prática recorrente na invisibilização da população das mulheres transexuais e
travestis, que não podiam ser mencionadas ou mostradas em jornais e programas
de TV, salvo em raras exceções, como a manchete de 1º de maio de 1980, na qual
o jornal O Estado de São Paulo publicou: “Polícia já tem plano conjunto contra
travestis”. Para o poder público e demais autoridades da época, os valores e
costumes transgressores desse grupo minoritário eram vistos como ameaçadores à
juventude e ao regime arbitrário e ditatorial. O endurecimento se intensificou
entre os anos de 1980 e 1985, quando o delegado José Wilson Richetti ordenou a
prisão em massa de inúmeras mulheres transexuais e travestis através dos
temidos “rondões” que levaram mais de 1.500 pessoas à prisão só na cidade de
São Paulo. Em 1987, mesmo após o fim do regime militar, a polícia manteve o
hábito e deu início à Operação Tarântula, com o objetivo de caçar e prender,
por motivo de vadiagem, inúmeras mulheres transexuais e travestis que se
prostituíam na capital paulista. Torturas, espancamentos e extorsão eram
recorrentes contra aquelas que fossem detidas e, como forma de escaparem da
prisão, muitas delas acabavam cortando os pulsos. Como o Brasil passava por uma
histeria coletiva contra o HIV/AIDS, o medo que os policiais tinham de contrair
o vírus era maior do que o desejo de punir as mulheres transexuais e travestis
e, consequentemente, acabavam “libertando-as”. Hoje, lutamos e resistimos pela
justiça e memória de todas as mulheres transexuais e travestis que foram
injustamente torturadas por um governo discricionário, autoritário e assassino,
que expuseram suas reais identidades femininas e que ao lutarem pela
democracia, cidadania, por dignidade e representação de seus direitos foram
massacradas. Atualmente temos muitas ‘datas comemorativas', como o Dia 29 de
Janeiro e o Dia 15 de Maio, onde são comemorados respectivamente o Dia da
Visibilidade Trans e o Dia do Orgulho de Ser Travesti e Transexual em todo o
Brasil, o que significou, para o atual governo federal, o início de um regime
duro e covarde para com essa população, que afirma, com veemência, uma falsa
ideologia de gênero feminina, que pode ser implantada pelas mulheres
transexuais e travestis brasileiras.
Considerações Finais
Pajubá ou Bajubá é o nome dado para o “dicionário” com os
dialetos e gírias da população das mulheres transexuais e travestis
brasileiras, que são bastante usadas por muitas pessoas que aderiram a essas
‘palavras’.
Com o passar do tempo, a tendência que esse vocabulário seja
mais e mais usado, por causa da luta política, por cidadania e respeito, do
movimento social das mulheres transexuais e travestis brasileiras e, com uso
contínuo dos termos dessa parcela da população serve como ponto positivo e de
ressignificação para o convívio e interação com a sociedade como um todo.
Apesar de ser instrumento identitário para expressar uma linguagem tipicamente
da população das mulheres transexuais e travestis brasileiras, esse linguajar
acaba por se encruzilhar na léxica nacional, transbordando para além desse
grupo, pois à medida que essa fala é progressivamente continuada essa população
vai conquistando, sendo inserida e incorporada em mais espaço com e por
legitimidade social. Mais do que criar termos que se aproximem de gírias no português
brasileiro, o pajubá ou bajubá reúne também várias características linguísticas
próprias. Isso aparece, por exemplo, quando um movimento de expressão de fala
performático reforça que o dialeto cria uma noção de cultura. Pois, se de um
lado, pode ser usado como por meio de inspirações dos muitas segmentações das
religiões de matriz africana e afro-brasileiras, que são uma das poucas que
incluem a população das mulheres transexuais e travestis, no entanto, algumas
Casas de Aṣé ainda têm restrições e julgamentos morais, preconceitos por
intolerância transfóbica estrutural pela expressão da identidade feminina,
Dessa forma é também uma maneira da auto-afirmação da expressão identitária
social feminina, para a sociedade androcêntrica cishegemônica, da população das
mulheres transexuais e travestis brasileiras entre outros grupos sociais e
coletivos, já que as mesmas ainda são continuamente marginalizadas,
estigmatizadas e violentada cotidianamente. A questão das transexualidades e
travestilidades perpassam, transitam e se entrecruzam entre as classes sociais,
assim como a intolerância transfóbica e as violências estruturais contra as
identidades de gênero feminina das mulheres transexuais e travestis
brasileiras, uma vez que, muitas artistas, atrizes e cantoras mulheres
transexuais e travestis que não têm sua produção valorizada, porquanto grande
parte delas está fora do mercado formal de trabalho, mesmo com excelentes
formações acadêmicas, talentos próprios, projetos e experiências, ainda estão
excluídas e subalternizadas somente porque um dia expuseram suas reais
identidades femininas e afirmam-se como mulheres transexuais e/ou travestis.
1. Iyálòrìṣá de candomblé da nação de Ketu, teóloga,
transfeminista, negra, formada em serviço social, pós-graduada em direitos
humanos e sexualidade, coordenadora nacional da CONATT, secretária executiva
geral da ANTRA, coordenadora estadual do FONATRANS em São Paulo, presidenta do Instituto
APHRODITTE-SP, coordenadora adjunta do Fórum Paulista LGBTI, integrante da
comissão LGBTI da ALESP. E-mail: fernandamoraesantos@gmail.com
2. É um jargão ou linguagem de um grupo, frequentemente
usada para excluir ou confundir pessoas de fora do grupo. Cada termo difere
ligeiramente em significado, e seu uso é inconsistente.
3. Na linguística é a variante de uma língua falada por um
grupo social, uma classe social ou subcultura. Nisto, diferencia-se do
idioleto, que é a forma de uma língua peculiar a uma pessoa.
Referências Bibliográficas
Tensu (21 de junho de 2009). «Dicionário Bajubá / Pajubá».
Tensu!. Consultado em 2 de dezembro de 2020. Laura Reif (11 de fevereiro de
2019). «Muito além do lacre». Revista Trip. Consultado em 21 de Julho de 2021;
Ive (21 de junho de 2009). «Você sabe o que é Pajubá?». Lupa Digital. Consultado
em 26 de março de 2018
Uma das línguas de santo sendo analisadas, AS LÍNGUAS
VEICULARES NO CANDOMBLÉ DE CONGO-ANGOLA Professor Doutor Sérgio Paulo Adolfo –
Tata Kisaba Kiundundulu Universidade Estadual de Londrina[ligação inativa] A
Linguagem no Candomblé:um estudo linguístico sobre as comunidades religiosas
afrobrasileiras, por Antonio Gomes da Costa Neto; SILVA, Jovanna Cardoso da.
(2021). Bajubá Odara: resumo histórico do nascimento do movimento de travestis
e transexuais do Brasil. (Picos-PI). ISBN – 978.65.00.16059-8.
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